Este verão calam-se os acordeões

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Por todo o Algarve, o cancelamento dos bailes populares virou do avesso um circuito que dá trabalho a muitos acordeonistas. Sem espetáculos, já há quem pondere abandonar a música e dedicar-se a outras atividades.
O público sente o vazio, sobretudo em lugares onde as festas eram uma forma de quebrar o isolamento.

«Estremeceu tudo, mas na música foi e é o caos. Os músicos foram os primeiros a cair e serão os últimos a levantar-se. Sobretudo os acordeonistas mais populares, muito ligados às festas, no Algarve e em todo o país. O acordeão é um instrumento do povo, do bailarico, do folclore. Neste momento está tudo a zeros, completamente parado, e vai continuar assim até a pandemia acabar, sabe-se lá quando», diagnostica o acordeonista e professor Nelson Conceição.

«Hoje é impossível ouvir o acordeão a tocar e ver tudo a dançar num baile de verão. Um rapaz a chamar uma rapariga, um senhor a desafiar uma senhora para uma dança, todo aquele convívio a que estávamos habituados acabou. Sofrem os músicos e sofre o povo, que perdeu um dos seus divertimentos. Os ranchos folclóricos estão na mesma situação», lamenta.

«Há acordeonistas a passar grandes dificuldades e alguns já se agarram a outras profissões. Sabe-se lá se algum dia voltarão a tocar e a animar bailes. Sei de acordeonistas que já estão a vender os seus equipamentos. E não são só os acordeões, são os equipamentos de som e de luz, tudo o que tinham para sozinhos organizarem as festas de aldeia», por vezes a única forma de quebrar o isolamento de muitos montes e povoações do interior.

«Note-se que o acordeão popular é muito auto-suficiente. Habituou-se a não precisar de apoios nem subsídios. As festas das coletividades e os bailes populares pagavam-se a si mesmos, ou seja, as entradas nas salas, os jantares, as receitas do bar, tudo isso é que sustentava os acordeonistas, os donos dos restaurantes ou salões de dança. Ganhavam dinheiro e pagavam impostos, geravam receitas para a economia do país», sublinha ainda Nelson Conceição, ouvido pelo barlavento.

«Os acordeonistas de outros tipos de música, por exemplo, os mais ligados ao jazz ou à música clássica ou erudita, estão um pouco menos mal, porque vão surgindo, de forma pontual, algumas oportunidades para concertos. Mas, por exemplo, no meu caso, zero. Tudo o que tinha agendado foi cancelado. Claro que para já o futuro é ainda sombrio», admite.

As «câmaras municipais algarvias também foram apanhadas neste turbilhão de acontecimentos e muitas delas, quase todas, não estão bem atentas a estes problemas da nossa cultura popular regional, e isso é ainda mais preocupante», considera.

Neste momento, «a única certeza que temos é que a pandemia vai transformar a nossa sociedade. O acordeão popular algarvio vai ficar muito abalado. E isso é algo que temos de observar com toda a atenção. Pode-se estar a perder, a partir-se um fio condutor que ligava as pessoas, ao longo de gerações, a um modo de viver, divertimento e convívio social».

«Se as entidades públicas não ajudarem este sector, se não perceberem a tempo que não se podem voltar apenas para uma cultura mais elitista e abandonarem a cultura popular, a verdade é que é muito possível que o acordeão algarvio popular acabe aqui», conclui.

«Nunca pensei passar por isto» afirma Humberto Silva

Humberto Silva, nascido, criado e sempre a viver em Lagos, tem 36 anos e começou a tocar aos quatro, quando os pais lhe compraram um pequeno acordeão. «Desde que me lembro de mim, recordo- -me de ir aos bailaricos e sonhar que um dia seria eu a tocar».

Com 7 anos foi aprender, primeiro com a professora Eliane Pires e depois com o professor Paulo Ribeiro. Aos 13 começou a atuar. Casado e pai de três filhos, orgulha-se dos 23 anos de carreira de músico a tempo inteiro.

«Sempre vivi disto. A vida que tenho hoje devo-a à música. 2019 foi um excelente ano de trabalho, sempre com quatro a 10 dez atuações por semana, repartidas por bailes, danceterias e centros de dia para idosos», contabiliza.

Em janeiro, também a agenda para 2020 parecia promissora. «Mas no dia 10 de março comecei a receber telefonemas para cancelar espetáculos. A última atuação que tive foi no dia 8 de março, Dia da Mulher. A partir daí, nada. Nunca mais pisei um palco para ir trabalhar e continuar a ganhar a vida», conta ao barlavento.

Do ponto de vista financeiro, Humberto Silva vivia tranquilo e até com algum conforto, desde que não pensasse em extravagâncias.

«Agora vivo das poupanças, a que se juntam o salário da esposa e um apoio da Segurança Social que ronda os 370 euros líquidos. Tenho três crianças para dar de comer e vestir todos os dias. Não lhes queria baixar o nível de vida. É muito complicado. Estou triste, sinto-me à deriva e tenho alguma revolta. Desconto há muitos anos, tenho tudo certinho. De repente surge esta situação que me deixa desamparado. Até à pandemia, ter três filhos era considerado muito bom» porque era um contributo para contrariar o abismo demográfico do país.

«Agora parece que já ninguém se lembra disso!».

A Câmara Municipal de Lagos, «pelo contrário, preocupou-se connosco, artistas lacobrigenses. Organizou atuações online e pagou-nos por elas. Agora, em agosto, aos sábados teremos um drive-in no campo de futebol. Em cada noite atuam dois artistas ou duas bandas e vamos voltar a ser remunerados. Eu, por exemplo, vou atuar no dia 22. Estou muito contente com isso».

No entanto, Humberto Silva não esconde que vê «o amanhã como um grande ponto de interrogação. Pode surgir uma vacina e a pandemia acabar da mesma forma que começou, mas também se poderá arrastar por mais tempo».

O que lhe parece certo é que «o futuro será bastante escuro e nós teremos ainda muito para penar».

«Por agora estou a aguardar e ver o que vai acontecer nos próximos meses, no máximo dois ou três, mas se não houver esperança terei de agarrar-me a outro ofício qualquer. Sei lá, hotelaria, restauração, operador de supermercado, ou qualquer coisa que me surja», admite.

«A minha revolta, sabe, não é só é por mim. É por todos nós artistas. É também pelo nosso público. Enquanto artistas, contribuímos para o país. Pagamos contribuições e impostos, ajudamos Portugal a andar para a frente. Económica e culturalmente. O público precisa de música e não está a ter. As pessoas para quem eu atuava precisam de dançar, conviver umas com as outras. Agora estão transtornadas e tristes. Estão assustadas e com medo. Às vezes já nem sabem bem do que têm medo, só têm medo e já começam a ter medo de tudo», diz.

«Ir a um baile levanta-lhes a auto-estima e serve como uma terapia. Bastava terem de se vestir melhor para saírem de casa, estar com outras pessoas, contar as suas histórias, rir e até coscuvilhar da vida uns dos outros. Agora há muita tristeza nessas pessoas mais idosas que começam a pensar que já nunca mais vão a um baile na vida. Quando a pandemia acabar, têm medo de já ter morrido. É horrível. Nunca pensei estar a passar por isto».

«O Variedades»

Elieser João Candeias é presidente da Junta de Freguesia do Rogil, concelho de Aljezur, e conhece bem o mundo do acordeão popular. É o proprietário do Dancing «O Variedades», em Maria Vinagre, lugar muito concorrido em noites de sábado, ao longo dos 27 anos de existência daquele recinto de dança.

A atuação do acordeonista Fernando Pereira, na noite de 14 de março, foi a primeira a ser cancelada, e desde então não voltou a abrir as suas portas aos artistas e ao público.

«Noto um desgosto grande dos clientes que conhecem e frequentam «O Variedades», seja de verão seja de inverno, e que gostavam muito de vir aqui passar as noites de sábado. Acho que só agora, que fui obrigado a fechar, é que percebi da importância desta casa para a sociedade. As pessoas perderam bons momentos de distração e divertimento. Tínhamos clientes habituais de todo o Algarve e do Alentejo, e até de Lisboa que, quando vinham de férias para aqui, passavam sempre por cá» ao fim de semana.

Ao longo de quase três décadas, «tivemos uma programação muito variada, com bailes e também com concursos de misses e misters, e com as festas da Pinha e os bailes de Carnaval. E chamávamos público mais jovem, por exemplo, com músicos que tocam kizomba. Mas isto tudo parou com a COVID-19».

Elieser João Candeias não pensa, no entanto, fechar as portas em definitivo.

«Somos uma casa com nome feito ao longo de anos de trabalho. Os nossos clientes gostam de nós, têm saudades nossas, e nós podemos reabrir como restaurante com música ao vivo, desde que o público não dance, esteja apenas sentado a escutar. Muito provavelmente vou fazê-lo a partir de setembro ou outubro», prevê.

Como empresário, reconhece que está a sofrer bastante.

«Continuo a pagar impostos, eletricidade, comunicações, enfim, toda uma despesa fixa mensal. É um prejuízo grande e muitos empresários não estão a aguentar. Ainda tenho capacidade para aguardar mais uns meses mas se quisesse mudar de ramo teria dificuldades em responder aos investimentos necessários».

O também autarca está preocupado com as pessoas. «Ficaram sem uma alimentação psicológica que lhes permitia distrair-se e andarem mais alegres. Para muita gente é saudável frequentar espaços de lazer como «O Variedades» porque evita que tomem certos medicamentos. Quando não têm entretenimento começam a andar doentes e tomar anti-depressivos com muito mais frequência».

Mito Algarvio reconhece a complexidade da situação atual

«Muitos artistas que usam o acordeão não são vistos como artistas, mas apenas como meros animadores de festas popularuchas. Por isso são poucos valorizados e acabam por passar muito mal nestes tempos. Mas isso é muito injusto, porque estes músicos desempenham um papel importantíssimo na socialização das nossas comunidades, especialmente as das zonas mais serranas, e nos grupos etários de mais idade. Urge mais atenção para esta realidade, porque sofrem os músicos mas sofrem também as populações, que perdem a sua forma de entretenimento e convívio», diz João Pereira, presidente da Mito Algarvio – Associação de Acordeonistas do Algarve.

A associação está «muito atenta ao que se está a passar, mas na verdade temos poucos meios para ajudar. Até agora temos apoiado os mais jovens para que possam participar em concursos internacionais, oferecendo ajudas que não existiam. Num passado recente, na maioria dos casos, eram os pais dos jovens que pagavam todas as despesas.

A Mito Algarvio até consegue que apareçam outros apoios. No presente toda a nossa atenção está na Copa, mas depois esta questão será uma das novas prioridades», garante.

João Pereira, presidente da Mito Algarvio.
João Pereira, presidente da Mito Algarvio.

Diáspora e solidariedade

Muitas foram as festas, bailes e outros eventos onde Ricardo Laginha fez soar a sua música. Natural de Vale das Éguas, concelho de Santiago do Cacém, é um nome bem conhecido no Algarve, Alentejo, Lisboa, Castelo Branco, Viseu e estrangeiro.

«Eu estava a ter um ponto alto na minha carreira. Nunca tinha tocado tanto como em 2019. O ano passado e este seriam os melhores anos da minha vida ao nível de marcações. O verão é sempre um ponto alto, e ia tocar todos os dias desde 2 de junho a 15 de setembro, de seguida, sem parar. Já tinha muitas festas e romarias para tocar, até em alguns locais onde é mesmo difícil chegar. Mas, derivado à pandemia, parou tudo por completo. É uma pena enorme tudo o que nos aconteceu», conta ao barlavento, a partir da Suíça.

Apesar de ter trabalhado como administrativo num hospital da zona de Lisboa, Ricardo Laginha, decidiu dedicar-se apenas à música.

«Como já tinha uma presença grande junto das comunidades portuguesas em França, Bélgica e Suíça», em junho mudou-se para aquele país, onde a situação é um pouco diferente.

«Um dia podia tocar em Zurique, apanhar o voo da TAP e no dia seguinte tocar nas Ferreiras», recorda, situação que já não é possível.

Ricardo Laginha.

«Neste momento, na Suíça é permitido fazer festas até 1000 pessoas. As pessoas podem dançar e conviver sem máscara. Só é obrigatório o uso de máscara nos transportes e em locais públicos. Desde julho consegui retomar a minha atividade, toco todos os sábados para a comunidade portuguesa, porque o acordeão é algo muito específico e é mais apreciado pelos nossos compatriotas», admite.

Imigrar era um projeto que já tinha latente. «Os ordenados aqui na Suíça são mais altos e temos melhores condições. Mas como sempre tive a agenda cheia, não estava preocupado» com a subsistência.

Ricardo Laginha sabe que muitos colegas estão a passar grande dificuldades. «O que não é justo, pois muitos destes músicos populares estão sempre disponíveis para participar em eventos de solidariedade sem pedir nada em troca.»

Se pensa regressar? «Não sei responder. Com esta questão do Coronavírus, acho temos de viver um dia de cada vez».