Em tempo de isolamento, produtores algarvios reforçam entregas

  • Print Icon

É altura de lutar pela sobrevivência. Seja para ajudar quem não pode sair de casa, seja para conseguir manter o negócio vivo, a verdade é que os pequenos produtores locais estão a unir forças para dar resposta à comunidade. A pandemia do novo Coronavírus (COVID-19) está também a obrigar a mudanças nos hábitos de consumo.

Com o estado de Emergência em vigor, os estilos de vida e o dia a dia da maioria da população algarvia teve de ser reestruturado. As saídas estão limitadas às necessidades mais urgentes e ainda assim, há quem não possa sair, de todo, de casa. Por isso, são cada vez mais as pessoas que procuram alternativas às compras no supermercado ou em superfície comercial, onde se geram filas.

Pegar no telefone e encomendar frescos a produtores locais que fazem entregas ao domicílio é um serviço com cada vez mais procura.

«Vendíamos nos mercados, mas como foram todos encerrados, tivemos de encontrar uma solução. Começámos a fazer cabazes e a aceitar encomendas, por iniciativa própria. Temos uma quinta, no Areal Gordo [Faro], onde produzimos diversos hortícolas. Quem quiser, pode ir diretamente ao terreno buscar. Mas também fazemos a entrega em casa de quem precisar. Estamos a ter cerca de 35 encomendas diárias. O que nos pedem mais são os brócolos, a couve-flor, cebola e espinafres e a maior parte dos nossos clientes são famílias», conta ao barlavento Nuno Gonçalves, que tem, há seis anos, como única fonte de rendimento, a sua pequena produção agrícola. Neste momento, aceita encomendas de todo o concelho de Faro.

Com o mesmo tipo de serviço, mas na freguesia de Querença, Loulé, está o produtor Carlos Faísca que vendia diretamente ao público nos Mercados de Loulé e de Quarteira.

«Ainda não tenho muita experiência nisto. A Associação In Loco contactou-me para saber se estava interessado em fazer parte da lista de produtores com disponibilidade para encomendas e aceitei. Comecei há cinco dias. Entrego duas vezes por semana em casa das pessoas que têm mais dificuldade em deslocar-se. Pedem muito ovos, rabanetes, batata-doce, alfaces e espinafres. A maioria dos clientes que tenho agora já me conheciam, mas tenho recebido muitas encomendas por parte de estrangeiros, que até aqui não me compravam.

Por dia, recebo cerca de 20 pedidos. E há ainda quem se desloque à minha quinta», explica. Para esta altura, Faísca entrega cabazes em todo o concelho de Loulé.

Diretamente da Quinta da Mareja, por parte da produtora Paula Pedro saem encomendas que circulam desde Albufeira até Moncarapacho. Uma produção agrícola biológica, certificada e sem estufas. Apesar de já fazer entregas, antes mesmo da pandemia da COVID-19, Pedro admite que o número duplicou.

«A maior procura é de folhosas para a sopa, alfaces, cebolas, cenouras e abóboras. A minha gama de clientes é muito variada. Tenho muitos portugueses, e muitos estrangeiros de várias nacionalidades, que são os mais fiéis», relata.

Em Tavira, a marca Maria Flaminga presta os mesmos serviços à comunidade. A produtora conta com sete hectares de terreno à porta da cidade e uma loja de venda ao público, onde se podem levantar os cabazes.

«Encomendam-nos um pouco de tudo. Era uma opção que já tinha antes, mas que agora aumentou cerca de 50 por cento. Na loja é onde noto a maior procura. Antes, cerca de 90 por cento dos meus clientes eram estrangeiros. Nesta altura, o número de portugueses tem crescido muito. Tenho para venda frutas, pimento, pepino, tomate, alface, abacate, entre outras coisas», refere Maria Flamingo.

«O produto tem de ser vendido porque também preciso de pagar as contas. Esta é uma confiança que as pessoas têm. Eu estou sempre no campo. As pessoas sabem que o que compram é caseiro e que também não tive contacto com muitas pessoas. É uma segurança».

Um sentimento partilhado por todos os produtores locais que começaram a ver opções para os seus negócios.

«As pessoas parecem ter mais confiança e segurança em produtores locais». Pelo menos é a opinião de Telma Martins, que tem entregue cabazes na freguesia de Salir.

No concelho vizinho, em Vila Real de Santo António (VRSA) é Patrícia Dores que tem estado encarregue de gerir as encomendas do pai, um produtor agrícola que tem sentido dificuldade em escoar os produtos, uma vez que fornecia mercados e restaurantes.

«Sugeri que se fizessem cabazes para se entregarem nas casas das pessoas. Ele aceitou. Temos vários hortícolas, mas o que mais nos pedem são batatas e cebolas. Quanto aos clientes, são de todas as faixas etárias. Isto foi uma iniciativa nossa, que começou há duas semanas, mas que agora queremos continuar a fazer. Na primeira semana recebemos logo cerca de 10 encomendas. Deu-me algum ânimo», afirma Dores.

Já na opinião de Maria Clara Pires, de Tôr, Loulé, que tem como única fonte de rendimento a sua produção e que aceita encomendas de todo o concelho, «esta é uma boa iniciativa para escoarmos a produção, visto não podermos vender nos mercados. Desta maneira estamos a promover os produtos locais, uma vez que nas grandes superfícies, a maioria vem de fora. Espero e desejo que depois disto, se continue a preferir os produtores locais» quando a pandemia passar.

Um desejo em comum com João Cabrita, de Alte, que também tem como única fonte de receita, a agricultura. «Isto está tudo a começar. Estou a tentar adaptar-me, mas neste momento não há outra solução. Assim é que deveria ser sempre, as pessoas comprarem localmente. Devia-se privilegiar este tipo de opções», diz ao barlavento.

Também o presidente da Associação In Loco, Artur Gregório, responsável por criar uma lista de produtores locais a aceitarem cabazes, segue a mesma linha de pensamento.

«Há muitos anos que defendemos que temos de mudar toda a nossa forma de ser e de estar. Temos de mudar o estilo de vida para um mais sustentável, mais equilibrado e mais ligado ao local. Acho que temos aqui uma oportunidade única na nossa geração para fazermos essa reflexão e essa mudança. Temos aqui um aviso da natureza para pararmos, pensarmos e escolhermos um caminho que dê prioridade à sustentabilidade, ao consumo equilibrado, aos valores da produção e do consumo local. Vamos ver se agarramos esta oportunidade», conclui.

In Loco prepara aplicação digital (app) para facilitar compras no telemóvel

A Associação In Loco, que tem como objetivo promover negócios locais direcionados para a sustentabilidade e qualidade de vida, criou uma lista, com vários produtores locais, que se encontram a aceitar encomendas, de forma a incentivar a população a optar por este tipo de serviços.

«Agora é uma oportunidade. O que estamos a fazer é contactar muitos dos produtores, que só vendiam nos seus locais e mercados, para criarem uma resposta que dê satisfação às necessidades atuais. Estamos a estimulá-los para que aumentem a oferta de entrega direta aos consumidores. Já que temos esta situação tão estranha e tão complexa, a produção local pode ser uma resposta efetivamente viável, equilibrada e sustentável. Isto vem demonstrar como a pequena produção local é algo que tem sido negligenciado e abandonado ao longo dos anos, mas que é algo extremamente importante para a sobrevivência das pessoas», começa por referir ao barlavento, Artur Gregório, presidente da associação há quatro anos.

E é nesse sentido, e de forma a incentivar mais a compra em produtores locais que a In Loco se prepara para brevemente inaugurar uma aplicação.

«Para aceder a uma base de dados extensa sobre produtores, mercados e cabazes alimentares. O objetivo é criar canais complementares para as pessoas acederam aos contactos com os produtores locais. É uma forma de os produtores apresentarem as suas produções de maneira fácil e de ajudar os consumidores a encontrarem o produtor mais perto», explica o presidente.

Quebra no negócio do pescado é de «mais de 50 por cento»

O novo Coronavírus que veio decretar estado de Emergência em Portugal afetou várias áreas de negócio. O Mercados dos Caliços, em Albufeira, continua a funcionar, com limitações, mas nas bancas do peixe, o número de clientes reduziu mais de 50 por cento. Para tentar contornar a situação, muitos estão a aceitar encomendas e a entregar cabazes porta a porta. É o caso de Vítor Marciano, responsável pela banca número 21 na zona do pescado.

«Tenho peixe diferente todos os dias, mas o que mais procuram são os baratos como o carapau, a dourada e o robalo. Por dia temos recebido cerca de 20 encomendas, todas no concelho de Albufeira. A maior parte dos clientes são pessoas de meia idade e com famílias, todos portugueses. Há mesmo quem peça para vir à praça e nós entregamos no carro da pessoa. O ambiente no Mercado é muito fraco e as pessoas tentam manter a distância», detalha ao barlavento.

Quanto à quebra no negócio, Marciano refere que é «mais de 50 por cento. Há um mês atrás comprava 20 ou 30 caixas de peixe e agora são 10 caixinhas e às vezes nem isso. Ninguém está para arriscar em investir dinheiro para não ter retorno. As pessoas não compram mais do que antes. Compram apenas para uma refeição ou duas. Primeiro porque querem peixe fresco e depois porque querem variar», finaliza o comerciante.

Pão e lacticínios são os mais requisitados

No concelho de Faro, a «Cesta d´iguarias», de Filomena Saraiva, é uma firma de produtos alimentares que aceita encomendas. Disponibiliza até peixe fresco. Antes da pandemia, 99 por cento dos clientes eram restaurantes e o resto mercearias. Nesta altura, Saraiva diz que são «bastantes os pedidos», cerca de oito por dia, e até de fora do município. Quanto aos produtos mais requisitados, enumera o pão, o leite e os iogurtes.

Filomena Saraiva.

Em Portimão, a Padaria Rasmalho começou também a aceitar pedidos no concelho. Filipe Freitas, um dos responsáveis pelo negócio, revela que as encomendas já ultrapassam as 50 diárias. «Tem sido uma tarefa complicada e não para de crescer. O que nos pedem mais é pão grande para as famílias, pão médio, carcaças e croissants. Vamos porta a porta e temos todas as precauções com luvas e máscaras. A ideia de entregar os cabazes foi minha e pensei que podia resultar porque além de ajudar o negócio, ajuda a comunidade. As pessoas gostam desta iniciativa. É um conforto para elas», explica.

«Ligavam-me a pedir carne e quero ajudar a comunidade»

O talho Helder Martins é uma referência no Mercado dos Caliços, em Albufeira. Há pessoas de todo o país que conhecem a marca e na comunidade, não há ninguém que não conheça o proprietário.

Ao barlavento, Martins conta que começou a entregar cabazes ao domicílio devido aos inúmeros contactos que lhe faziam. «Vamos ao concelho todo. As pessoas estão retidas em casa e começámos a receber telefonemas a perguntarem se estávamos disponíveis. Quem nos procura mais são os clientes que têm já uma certa idade. De estrangeiros não temos encomendas».

«O que nos pedem mais são o frango, o peru e a vaca. Noto que estão a comprar em maior quantidade para alguns dias. Estamos a aumentar as encomendas que já rondam as 10 diárias. Faço isto porque quero contribuir para a comunidade, não para promover o meu negócio, mas claro que é uma ajuda para se manter»…

Cabazes agrícolas

Albufeira e Silves
Cabaz 100 por cento biológico: Pequeno (4-5 kg) custa 15 euros| Grande (8-9 Kg) custa 20 euros
Contactar: Carla Dias
Entrega em Albufeira: quinta-feira, 16 horas
(na cidade, parque de estacionamento MFA 2)
Entrega em Silves: sexta-feira, 16 horas
(na exploração agrícola Horta da Torre)

Lagos e Portimão
Cabaz 100 por cento biológico: Pequeno (4-5 kg) custa 15 euros | Grande (8-9 Kg) custa 20 euros
Contactar: Fátima Torres (916 704 894).
Entrega em Portimão: quarta-feira, 16 horas
(em local a agendar com a responsável)
Entrega em Lagos: quinta e sexta-feira
(em local e hora a agendar com a responsável) 

Olhão
Cabaz da época: Pequeno (4 a 5 kg) custa 6 euros | Grande (8-9 kg) custa 12 euros
Contactar: Cooperativa Agrícola Esperança de Moncarapacho (919 224 672)
Entrega: quinta-feira, das 15 às 18 horas na sede. Também faz entregas em Quelfes e Olhão.

São Brás de Alportel
Cabaz da época: Pequeno (4-5 kg) custa 6 euros | Grande (8-9 kg) custa 12 euros
Contactar: Cláudia Barros
(961 462 004 | [email protected])
Entrega: quarta-feira, das 17 às 18 horas na vila,
junto à Associação In Loco.

Encomendas

Albufeira
Produtos da época
Dina Guerreiro e Luis, de Paderne
(967 598 042 | [email protected])
José Aleluia, de Albufeira (961 410 823 – só entrega no Mercado dos Caliços, em Albufeira)
Produtos biológicos
Carlos Cabrita, de Paderne
(912 246 868 | [email protected])

Faro
Nuno e João Gonçalves, de Faro (914 705 898)

Loulé
Produtos da época
Carlos Faísca, de Querença (918 732 723)
Telma Martins, de Salir (918 229 216)
João Cabrita, de Alte (919 445 816)
Maria Clara Pires, de Quarteira e da Tôr (961 361 253)
Luis Coelho, de Salir ([email protected])

Olhão
Produtos biológicos
Paula Pedro, de Moncarapacho (919 014 522)

São Brás de Alportel
Produtos da época
Andreia Martins (964 333 279)
Ângela Martins (968 983 892)
Produtos Biológicos
Paulo Belchior (914 440 065 | [email protected])

Tavira
Linda Sebastião da Saúde – Horta Fresca, de Tavira
(965 586 623)
Produtos biológicos
Maria Flamingo, de Tavira (912 861 246)

Vila Real de Santo António
Patrícia Dores, de Vila Real de Sto. António (964 993 789)