Dinamarquês radicado em Lagoa exporta ervas aromáticas para a Europa

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«Aqui sinto-me em casa», afirma Brian Knudsen, 43 anos, agricultor dinamarquês radicado no Algarve desde 2011.

Viver em Portugal era sonho de juventude. Contudo, teve de acelerar a mudança por motivos pessoais. Instalou-se com a família perto de Porches, no concelho de Lagoa, que escolheu pelo clima ameno, o estilo de vida mais tranquilo e sobretudo, a possibilidade de continuar a focar-se no negócio agrícola.

Nos três anos seguintes exportou para a Escandinávia mais de 500 toneladas de cebolas e 600 toneladas de ervilhas, faturando mais de 1 milhão de euros em frescos. Os mercados precisam, a terra é boa, diz.

Viver em Portugal «era um velho sonho meu. Vim cá pela primeira vez em 1996, numa visita de estudo. No regresso a Copenhaga, lembro-me de pensar para comigo, sentado no avião da TAP: tudo farei para viver em Portugal antes de fazer 50 anos».

«Claro, eu era muito novo e esqueci-me disso». Mais tarde, Brian e a esposa Tina Knudsen fundaram a companhia Frigaargroent, em 2001. Uma quinta de 80 hectares, no lado oriental da ilha Funen no coração da Dinamarca, onde produziam cebolas amarelas, vermelhas, chalotas e chalotas-banana para os mercados interno e do norte. A empresa também comercializa produtos portugueses, como laranjas, couve-repolho e abóboras.

Mais tarde, o casal veio passar férias a Portugal no verão de 2010, na esperança de melhorar um pouco o estado de saúde de Tina, que entretanto tinha adoecido. «E isso aconteceu, logo após cinco dias. Regressamos em outubro, para testar o que acontecia. Ela melhorou outra vez», recorda Brian.

«Para mim foi um sinal. Mudámo-nos definitivamente para o Algarve no dia 1 de abril de 2011. Voltei à Dinamarca para as sementeiras e voltei mais tarde, no final do mês. Tinha uma esposa renovada à minha espera. Com ar saudável, muito feliz e praticamente sem dores. Tive a certeza que fizemos a escolha certa. E portanto, fui à luta para poder continuar a viver aqui e não apenas passar umas longas férias», recorda.

Knudsen já tinha feito contactos no ramo em Portugal e trouxe reforços para o ajudar. Também arranjou forma de continuar a gerir a quinta na Dinamarca, a partir da sua nova casa no estrangeiro.

«Convidei um colega dinamarquês que esteve durante cinco anos a tentar produzir ervilhas em Itália. As ervilhas frescas são comidas na Dinamarca e Finlândia diretamente das vagens. São um petisco a qualquer altura. E portanto, a procura é enorme», explica.

Ainda hoje Knudsen acredita que Portugal tem muitas vantagens em relação a outros países do sul.

«No Ribatejo conheci sistemas de irrigação fantásticos, muito bem construídos, melhores dos que vi em Espanha e Itália», compara. E portanto, estabeleceu parcerias com produtores de Alpiarça, Salvaterra de Magos e mais recentemente, no Alentejo.

«Na minha opinião, os agricultores portugueses são gente de confiança. Aqui os negócios,
muitas vezes, são feitos, como aprendi com o meu avô: a palavra conta».

Claro que «Portugal não é diferente dos outros países. As pessoas não gostam da agricultura. Querem tecnologias de informação, doutoramentos, o que for. A comunidade não devia aceitar esta mentalidade. Poderíamos ter produções maiores, mais postos de trabalho e um aumento nas exportações», refere.

«De forma geral, há muitas e boas oportunidades em Portugal. Penso os portugueses devem estar orgulhosos do seu país. Muitas pessoas na Dinamarca não fazem ideia do que é Portugal. Mas quando vêm cá, veem a natureza, aprendem sobre a história e cultura, e sobretudo sentem como os portugueses são gentis e de confiança, e ficam boquiabertos!», diz.

«Quando decidimos mudar-nos para cá, a Tina estava um pouco preocupada com crianças, que tinham 3 e 6 anos. Foi a altura ideal. Desde então vão à escola, jogam futebol, fazem ginástica e andam a cavalo nos tempos livres. O meu filho já é mais português que dinamarquês. É claro que somos diferentes. Mas na minha opinião, quando falo de valores pessoais, encontro muitos portugueses que pensam como eu. Aqui sinto-me em casa».

Aromáticas biológicas para toda a Europa

Quase em cima do do mar, em Bemparece, Brian Knudsen cultiva hoje coentros, hortelã, salsa, rosmaninho, tomilho, cebolinho, erva-príncipe e tomilho-limão e outras ervas menos conhecidas como o amaranto vermelho, um super-alimento originário do Peru, apreciada por incas e astecas.

«Criámos a Schroll Flavours no final de 2017 com o grupo Schroll, uma empresa dinamarquesa que também produz hortênsias aqui no Algarve. O nosso principal objetivo é produzir ervas aromáticas frescas em modo de produção biológico para o mercado europeu», explica.

Ao ar livre ou em túneis plásticos, Knudsen gere 18 hectares de ervas aromáticas, divididos por duas quintas certificadas como biológicas.

«Nos primeiros anos sentimos alguma dificuldade em produzir biológico, mas aprendemos que se trabalharmos com a natureza e a respeitarmos, podemos facilmente pôr o solo a trabalhar para nós», assegura.

As ervas aromáticas da Schroll Flavours são vendidas em Portugal pelas empresas Vasco Pinto e Vitacress e podem também ser degustadas em França, Bélgica, Suíça, Dinamarca, Alemanha e Inglaterra.

O segredo da sua longevidade na prateleira é um simples tratamento a frio numa câmara de vácuo, a 3-4ºC, durante 15 minutos.

Apesar da pandemia da COVID-19 e das quebras que teve nas encomendas, Brian Knudsen olha com otimismo para o aumento da produção e consumo de alimentos biológicos em Portugal e na Europa.

«Temos planos para expandir o negócio e crescer a par e passo com o mercado biológico. Apesar de a COVID-19 ter feito abrandar o crescimento, tenho certeza de que vai acontecer uma retoma. As pessoas hoje em dia estão mais despertas para a sustentabilidade».

Em 2018, a União Europeia importou 3,4 milhões de toneladas de alimentos biológicos, tendo a China como principal fornecedor.

Para reduzir a dependência das importações e incentivar um sistema alimentar justo, sustentável e amigo do ambiente, a Comissão Europeia propõe como meta aos Estados-Membros que 25 por cento das terras aráveis da UE sejam convertidas em agricultura biológica até 2030.