COVID-19: crise já leva classe média à porta da Refood Faro

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Em março, a Refood Faro ajudava 114 pessoas, das quais 20 menores. Hoje são quase 300, das quais 90 são crianças, que recebem comida todos os dias. Pandemia obrigou Refood a reinventar toda a operação para conseguir dar resposta ao aumento de pedidos.

Desde maio de 2016, data que começou a operar na capital algarvia, que a Refood nunca tinha tido um número de pedidos de ajuda tão elevado, dizem ao barlavento os coordenadores Carlos Reis e Paula Matias.

No pós-estado de Emergência, e depois de um hiato na atividade desta rede cujo objetivo é a recuperação de comida em boas condições de consumo, o primeiro passo foi estabelecer parcerias com novos supermercados.

Isto porque os cerca de 50 restaurantes que garantiam as refeições quentes fecharam, ou estão a trabalhar a meio-gás. De apenas um hipermercado que diariamente fornecia bens alimentares, o núcleo de Faro passou a contar com 14.

Que mudou no mês de junho? «Tudo», diz Paula Matias. «Antes, trabalhávamos de segunda a sexta-feira, das 15 às 23 horas, com a maior parte das entregas realizadas das 19 às 21 horas. Agora trabalhamos de segunda a segunda, com turnos entre as 10h00 e as 23h00, sendo que as entregas são das 15h30 às 19h00. Antes entregávamos comida a cerca de 60 famílias, agora são mais de 150. Pela primeira vez começámos a receber pessoas do banco de voluntariado da Câmara Municipal de Faro» para dar conta do recado.

Reis acrescenta que «agora há mais trabalho. Mudámos horários, necessidades e todo o modo de operar».

No universo dos beneficiários, também há alterações.

«Começaram a chegar-nos pessoas muito diferentes e com muito mais crianças. A mais nova que temos tem um mês de vida. Antes da pandemia, ajudávamos uma classe social que em nada corresponde à realidade de hoje em dia. Famílias inteiras que ficaram em layoff, que foram despedidas, ou que tiveram redução de horários e por isso, cortes nos salários».

«Pessoas que em fevereiro tinham a sua vida estabilizada e que com esta situação ficaram com pouco ou nenhum rendimento. Estamos a falar de uma classe média normal onde há uma grande pobreza envergonhada. É chocante. Tivemos mesmo de nos adaptar e ganhar algumas defesas porque são realidades que nos chocam», admite.

«E as próprias pessoas não sabem lidar com a situação porque nunca se viram com falta de alimento. Estamos a falar de pessoas que trabalhavam há décadas, com uma vida organizada e que de repente não têm dinheiro para todas as despesas», explica o coordenador.

Paula Matias vai ainda mais longe e revela que existiam já pais que deixavam de comer para darem aos filhos.

«Temos um formado que estava prestes a assinar um contrato de trabalho quando se deu o estado de Emergência. Quando chegou a nós só tinha duas laranjas e uma sopa».

Para Carlos Reis, que assegurou as entregas dos cabazes e conheceu a realidade habitacional de cada agregado familiar, foram as atitudes dos mais novos que o comoveram.

«É completamente diferente ver as famílias aqui à porta e ir conhecer o meio onde vivem. Chegar a casa de alguém, entregar a comida e as próprias crianças correrem para uma caixa de frutas, agarrarem numa melancia com os olhos a brilhar e reagirem como se tivessem recebido o melhor brinquedo do mundo, toca-nos muito».

Também nas despesas da casa o valor subiu. Com mais beneficiários e mais recolhas de bens, o número de frigoríficos teve de aumentar, assim como as viagens de carro.

«Tudo duplicou. Suportamos as despesas com os eventos que realizamos e foram os eventos de 2019 que nos estão a dar suporte para os encargos atuais. Não estamos já em dificuldade, mas a continuar neste registo, num espaço de seis meses, vai ser complicado», refere a responsável.

O colega concretiza: «passamos de uma conta de 150 euros mensais de eletricidade para 230. O combustível gastávamos 70 euros, agora são 200».

Para o futuro, a antevisão da responsável não é a mais animadora. «Prevejo que teremos um período muito complicado e os pedidos de ajuda aumentem».

No entanto, planos começam também a ser delineados. «Queremos manter este espaço e conseguir mais um novo para continuar a ajudar mais pessoas», conclui.

Maior lacuna é a falta de voluntários

Questionados pelo barlavento sobre o que faz mais falta neste momento ao núcleo de Faro da Refood, os coordenadores Carlos Reis e Paula Matias, são da mesma opinião: voluntários e ajuda às despesas da eletricidade e gasolina.

De acordo com Paula Matias, «a nossa maior lacuna, neste momento, prende-se com voluntários com carta de condução para nos conseguirem ajudar nas recolhas dos hipermercados, entre as 14h00 e as 16h30. Essa é a maior dificuldade que estamos a sentir. Temos neste momento cerca de 40 a 50 voluntários por dia, talvez 150 por semana, mas temos pessoas a fazerem mais que um turno». Segundo o colega, o ideal seria «termos mais 30 voluntários por semana».

Felizmente, há até empresas que estão atentas a estas dificuldades. «A Servilusa, sabendo que estávamos com estas carências, em horário laboral dispensou uma funcionária que nos vem ajudar no turno de sexta-feira das 14h30 às 17h00 com o carro da empresa. Nesse momento temos a carrinha da Refood a fazer recolhas nos supermercados e ela garante as dos restaurantes. Isso é uma ajuda muito importante e se todas as empresas nos ajudassem nesse sentido, seria excelente», explicita a responsável.

Câmara Municipal de Faro com papel preponderante e de união

Segundo os responsáveis do núcleo da Refood, a autarquia farense teve uma resposta imediata e foi uma ajuda indispensável ao movimento. Ao criarem a linha telefónica gratuita COVID-19, a ação social da Câmara Municipal de Faro conseguiu reencaminhar os pedidos de ajuda para cada uma das respostas sociais, seja a Refood, o Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS), Cáritas, entre outras.

«As técnicas estavam em teletrabalho agarradas ao telemóvel das 9h00 às 21h00. Acompanhámos essa realidade bem de perto. A linha tinha uma resposta imediata. Aquilo que não se sentia até à data, aquele apoio e aquela comunicação tão direta, passou a existir. Depois da pessoa falar com uma técnica, recebíamos logo um telefonema deles, antes até de nos mandarem email com a informação toda. Chegámos a ter vídeo-conferências com a Câmara e com os coordenadores das outras Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) para criarmos estratégias de respostas às famílias. Houve uma aproximação entre nós, uma união e sentimos a diferença pela positiva. Organizámo-nos muito e as IPSS fazem agora um trabalho mais conjunto», revela Paula Matias.

Além disso, a edilidade criou dois lugares de estacionamento à porta do núcleo, só para a Refood, cedeu máscaras e um gabinete de bairro para se realizarem as entrevistas com as famílias.

«O apoio da CMF tem sido excelente e sem ele teria sido impossível continuar a ajudar as famílias. Daquilo que é uma tragédia que assola o mundo, o concelho de Faro conseguiu criar oportunidades de melhor funcionamento e melhor capacidade de resposta para ajudar as pessoas. Isso é importante frisar. Das coisas más, também nasceram coisas positivas. As coisas estão a funcionar muito bem agora. A COVID-19 podia ter piorado e feito colapsar o sistema, mas não, houve esforço, envolvência e participação de todos. Em nome da Refood queremos agradecer ao chefe da ação social, ao vereador Carlos Baía e às técnicas da ação social porque têm sido incansáveis nas ajudas às pessoas», acrescenta.

Uma comunidade solidária

A Refood de Faro pediu ajuda à comunidade e a resposta não poderia ter sido mais positiva. Houve um grupo de corridas que se juntou e doou uma carrinha cheia de bens alimentares não perecíveis e dois grupos de Olhão, de cariz religioso, que todos as semanas faziam angariação de fundos. «Em geral, a resposta foi muito boa», diz ao barlavento a coordenadora Paula Matias.

Também o Moto Clube de Faro e a Universidade do Algarve doaram produtos. A título individual muitas foram as ajudas, a maior parte anónimas. E houve até uma voluntária, que por ser de grupo de risco teve de deixar de ajudar presencialmente, que ligou para um supermercado e fez uma doação de 250 euros em bens alimentares.

«O próprio núcleo tinha ainda alguma verba disponível, mas nunca pensámos que fosse ser usada para adquirir bens alimentares, como produtos que dificilmente nos chegavam como carne ou peixe fresco», conclui o coordenador Carlos Reis.

Refood Faro não parou no estado de Emergência

Com o decreto do estado de Emergência, a restauração encerrada e os contactos presenciais proibidos, o movimento teve de se readaptar porque a preocupação, essa continuava a ser a mesma, «assegurar alimentação a quem precisa», afirma ao barlavento a coordenadora Paula Matias.

«Tínhamos de parar o serviço da forma que tínhamos, mas não deixávamos de ter pessoas que dependiam de nós para comer. Tínhamos de continuar a assegurar-lhes, de alguma forma, a alimentação. Procurámos alternativas e estabelecemos parceria com o Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS). Encaminhámos para eles todos os beneficiários que não tinham hipótese de cozinhar e cedemos-lhe alguns supermercados».

«Ficámos com as famílias com crianças. Depois com o apoio da Câmara Municipal de Faro, do Banco Alimentar e de donativos da comunidade conseguimos adquirir produtos como carne e peixe fresco», explica. Assim, todos os fins de semana, de 15 em 15 dias, um elemento da Refood deslocava-se a cada habitação para doar um cabaz com alimentos.

Os cabazes foram entregues durante mais de dois meses, entre as 15h00 e as 21h00, pelo coordenador Carlos Reis. Na primeira entrega totalizaram-se 40. Na última, já em maio, tiveram de pedir ajuda ao Moto Clube de Faro, porque a carrinha da Refood era já pequena para os produtos dos mais de 60 cabazes.