Citricultura algarvia é sector em crescimento e inovador

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A terceira Mostra da Laranja de Silves, que decorreu na Fissul, entre 15 e 17 de fevereiro, deu a conhecer um novo sector que tem vindo a crescer e ganhar fulgor. E faz sentido que Silves tenha tomado a dianteira na promoção deste citrino, até porque é o concelho com maior área de produção. Durante a abertura do certame, Miguel Freitas, secretário de Estado das Florestas, caracterizou este novo impulso como «muito interessante».

«Após um ciclo, entre 2003 e 2009, em que tivemos uma redução drástica da nossa área de citrinos, temos vindo a recuperar e há um forte investimento nos citrinos. Antes [de 2003] chegámos a ter 18 mil hectares, depois passámos a 11 mil e hoje já temos 16 mil hectares», contabilizou. Há, porém, um dado que mostra que o recente investimento tem sido realizado com outros cuidados. «Enquanto que em 2003, com 18 mil hectares, produzíamos 240 mil toneladas, agora com 16 mil hectares, menos dois mil hectares, produzimos 340 mil toneladas, o que representa um acréscimo de 40 por cento. Significa que há pomares mais produtivos, uma maior profissionalização e conhecimento dos produtores», que têm sido a chave para a recuperação do sector, defendeu Miguel Freitas, durante a Mostra da Laranja.

Aliás, foram também estes empresários que aguentaram o choque do mercado externo. «Lembro-me que quando estive no sector, esse foi um grande desafio. Sermos capazes de ir lá para fora e vender o nosso produto», recordou. Na verdade, além de promover a laranja no exterior, este sector conseguiu equilibrar a balança de pagamentos, exportando mais citrinos do que a quantidade que importa. Em 2018 até houve superavit e só os citrinos totalizam 130 mil milhões de euros por ano, 10 por cento do que é exportado a nível de frutas e hortícolas, que representa um total de 1300 milhões de euros.

O Algarve é ainda exemplo no que toca a uma nova vaga de organizações em termos sectoriais. «Na década de 90 [do século XX], foram criadas organizações de produtores de citrinos e a Indicação Geográfica Protegida (IGP)», disse, admitindo que, na verdade, houve um período em que este não foi o elemento principal. «Agora estamos numa segunda fase, em que a maior parte das exportações são feitas a partir do produto com IGP. Isto é, estamos a usar a marca Algarve como elemento importante para colocar este produto nos mercados externos», elogiou Miguel Freitas. E a organização também tem vindo a mudar. Apesar de existirem apenas duas, ao invés das cinco do passado, «pela primeira vez num movimento muito interessante na região», este associa «também empresas privadas de dimensão» para a promoção de citrinos.

Foi nesta Mostra que a AlgarOrange, Associação de Operadores de Citrinos do Algarve, criada em 2018, se deu a conhecer ao público. «Esta é uma iniciativa que me parece que está posicionada no sitio certo para sermos capazes de, em conjunto, fazer abordagens, quer no mercado interno, quer no externo. No mercado interno, o apelo que faço é a um trabalho mais próximo entre a produção de citrinos e as suas organizações e o turismo da região. Estas rotas são muito importantes, mas a quantidade com qualidade vende-se quando o sector turístico perceber que é preferível ter um copo de sumo de laranja de manhã para os seus clientes em vez de qualquer outro que não seja natural», avisou Miguel Freitas, embora reconheça que a logística de abastecer cadeias de hotéis não seja fácil.

E para estar nos mercados é necessário conhecimento e inovação, quer na produção de citrinos, quer na sustentabilidade, na utilização de recursos como a água ou na adaptação às alterações climatéricas, sendo neste campo que entra também a Universidade do Algarve. «Temos de olhar também na perspetiva da criação de valor e este cria-se tendo conhecimento a montante que depois conduzirá a jusante. Nós temos alguns projetos de investigação na área dos citrinos e estamos disponíveis para trabalhar com e para a região», afiançou também Paulo Águas, reitor da Universidade do Algarve.

A verdade é que esta Mostra da Laranja, promovida pela Câmara Municipal de Silves, é uma âncora para os empresários e residentes, para que estes sintam «na autarquia uma proximidade quando se trata de encontrar soluções para algumas problemáticas que possam ter que enfrentar», justificou Rosa Palma, presidente da Câmara local, além de apenas a promoção do produto.

A conferência Laranja XXI, que tocou diversos temas desde fármacos para o controle da própria produção, às alterações climáticas e financiamentos, a laranja como fruto, a transformação e valorização dos citrinos foram destaque nestes três dias.

Geminação é aposta futura

O desafio de geminar a Mostra da Laranja de Silves com outros festivais foi um dos desafios deixados por João Fernandes, presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA) e da Associação de Turismo do Algarve (ATA). Uma ideia que até já foi tentada pela autarquia com Cote d’Azur, onde existe o Festival do Limão, com Amesterdão, na Holanda, onde a laranja também tem honras de destaque ou com a Varsóvia, na Polónia. Esta seria na opinião do responsável pelo turismo uma forma de valorizar o produto.

Rota da Laranja é lançada em breve

Para a mostra não ofuscar a nova rota turística da laranja a Câmara Municipal de Silves decidiu que a apresentação do projeto seria realizada num evento à parte. «A rota vai associar a produção e a transformação do produto ao espaço onde está inserido, procurando ir sempre da serra ao mar», avançou Rosa Palma, presidente da autarquia, que garante que esta será dada a conhecer em breve. Um roteiro que o turista pode seguir, sem uma ordem pré-definida para ficar a conhecer o território e a economia associada a este citrino.