Cervejeiro de Algoz produziu desinfetante para os bombeiros

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André Gonçalves, 33 anos, arquiteto paisagista, que desde 2015 se dedica ao fabrico da cerveja artesanal «Marafada», redirecionou a produção para ajudar no combate à pandemia da COVID-19 no concelho de Silves.

A declaração do estado de Emergência para conter a fase de mitigação da pandemia da COVID-19 levou a uma quebra na produção da cerveja artesanal «Marafada», que desde 2015 é feita na Quinta dos Avós, em Algoz. Mas nem por isso, a pequena unidade familiar deixou de ser útil.

«O desinfetante utilizado na limpeza dos nossos equipamentos é muito eficaz no combate ao novo Coronavírus e temos todos os mecanismos para o produzir. Assim, fornecemos os Bombeiros Voluntários de Silves, entre outras organizações, com grande eficácia, logo no início da pandemia, quando todos fomos apanhados de surpresa e havia escassez de oferta no mercado. Os fabricantes não conseguiam suprir as necessidades. Aliás, todos os microcervejeiros de Portugal contribuíram», explica ao barlavento André Gonçalves, 33 anos, formado em arquitetura paisagista, profissão que trocou para dar vida a esta bebida.

Esta mudança, que parece radical, não será tão estranha, pois é filho de uma doceira conventual algarvia reconhecida a nível europeu (Maria da Encarnação). Embora não consiga quantificar, a verdade é que este ano, «já produzimos quase tanto desinfetante como cerveja».

Nuno Gonçalves.

Da carolice ao sucesso

A cerveja «Marafada» já é conhecida dos apreciadores algarvios e surgiu por carolice, em 2013. «Comecei a fazer experiências de produção com um amigo. Outros conhecidos foram provando e dando feedback. Esse incentivo fez com que, cada vez mais, se tornasse impossível parar de produzir. A certa altura, fomos obrigados a mudar de carreira e enveredar pela produção artesanal de cerveja».

Na altura, e apesar da tradição vitivinícola do país e da região, André Gonçalves começou a aperceber-se da diversidade de rótulos que já existiam e começavam a afirmar-se. O que começou por ser um nicho de apreciadores, já dá vazão aos 40 mil litros produzidos em 2019.

E tendo as cervejas quatro elementos principais, o malte de cevada, a água, o lúpulo e a levedura, o que as distingue entre si?

«Os ingredientes podem levar tratamentos muito diferentes, quer nas torras, quer na caramelização que se faz antes de se adicionar a água, quer nos diferentes maltes usados. O lúpulo, por exemplo, é quase como o chá, que tem inúmeras variedades. Também as leveduras, os organismos vivos que fazem o incrível trabalho de transformar o açúcar da cevada em álcool e gás CO2, apresentam uma riqueza que acabam por nos dar uma panóplia de variedades no produto final», responde.

Basta fazer uma pesquisa simples para se encontrar cerca de 150 estilos de cerveja artesanal e quatro dezenas de leveduras, ao nível mundial.

A seguir às tão conhecidas lagers, André Gonçalves experimentou e adorou «a Indian Pale Ale, uma variedade que era produzida pelos britânicos para as suas tropas expedicionárias na Índia, na era colonial. Isto, porque as pale ale inglesas não aguentavam a viagem e estragavam-se antes de chegarem ao destino. Esta variante tem mais álcool, mais lúpulo e mais amargor. Deveria ser diluída após a chegada para ser transformada na pale ale habitual, antes de ser servida aos homens. Até que um dia alguém a experimentou antes da diluição e percebeu que era ótima tal como estava. É, na verdade, uma cerveja mais interessante», descreve.

Foi esta a «Marafada» original, que hoje tem 10 variantes disponíveis para consumo. A Indian Pale Ale é a preferida dos clientes ingleses e americanos.

«Também fabricamos a Algarve Pale Ale que é uma cerveja mais leve, com a presença de lúpulos muito aromáticos. Aliás, tem muito a ver com a nossa região na frescura, e na cor que nos faz pensar no nosso pôr-de-sol estival, tornando-a muito apetecível», descreve.

Ao contrário do que acontece com as cervejas industriais que pedem um frio quase estéril na hora do consumo, as artesanais devem ser servidas e apreciadas, algures entre os sete e os 12 graus centígrados, de forma a libertarem todos os sabores que contêm e que perdem, se forem demasiado geladas.

Um evento, uma novidade

A «Marafada» soube associar-se aos vários eventos no Algarve, sempre com um toque original.

Por exemplo, na estreia da Mostra da Laranja de Silves, André Gonçalves foi desafiado a fazer receita com laranja e aceitou o desafio, após se ter apercebido de que já existia um estilo de cerveja belga, a witbier, feita com citrinos e com um bocadinho de trigo, além da cevada. Uma cerveja leve que, em tempos, foi das mais vendidas na Bélgica. Assim nasceu a Silves Orange Witbier. Entretanto, surge uma colaboração entre produtores de três concelhos, dando origem à TUBER.

«Foi uma parceria com o produtor de cerveja artesanal Ale N’ Tejo que estava então sediado em Odemira. Falámos com a Associação de Produtores de Batata-doce de Aljezur e arrancámos em conjunto, unindo os esforços e o conhecimento de ambas as cervejeiras, utilizando o tubérculo, como fonte de açúcar, com o objetivo de o valorizar em Portugal», explica André Gonçalves.

A aventura conjunta resultou numa lager do estilo Bock, típico do norte da Alemanha. «Teve uma aceitação muito boa, por ser muito fácil de beber, em virtude de ter menos aroma e complexidade. Acabámos por nos ver obrigados a produzi-la durante quase todo o ano». A cerveja, segundo André Gonçalves, no que toca às artesanais, ainda é rainha nos concelhos de Odemira, Aljezur, Vila do Bispo e Lagos.

Cervejeiros unidos são mais fortes

Mesmo no início do desconfinamento e do verão, que convida ao consumo de bebidas, os dias são de incerteza.

Por isso, vários cervejeiros do Algarve uniram-se num projeto conjunto e estão a comercializar um pack, à venda para todo o país, com os rótulos artesanais produzidos no sul. São eles «Marafada» e «Genuína» de Algoz, a «Mania de Lagos» e «Vicentina» de Lagos, a «Nova Viva» e «Abaladiça» de Loulé, e a «Faro Bier Company», de Faro, que enviam o pack à casa dos apreciadores, com uma referência de cada produtor.

Os interessados podem encomendar através das redes sociais, contactando qualquer um dos cervejeiros.

Num futuro muito próximo, será lançado um pacote especial com 24 cervejas, ou seja, com os vários estilos que cada cervejeiro algarvio está a produzir.