Bruno Gonçalves, um algarvio no Caminho dos Tornados dos EUA

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Bruno Gonçalves, engenheiro do ambiente, de 42 anos, desde sempre se sentiu atraído pelos fenómenos atmosféricos que regista. Uma paixão que lhe tem valido reconhecimento internacional. O mais recente chega de Itália, pela Oniros Film Wards, prémio de dezembro para filmes com menos de cinco minutos.

«Cada vez se fala mais sobre as alterações climáticas e as influências que vão tendo nos vários países, sendo de esperar que em Portugal comecem a ser mais frequentes os chamados eventos extremos, passando de vários meses de seca ou de pouca chuva para episódios pontuais de forte precipitação ou de ventos mais fortes, que poderão causar problemas. Vou tentando obter todas aquelas imagens muito fotogénicas porque, embora as situações possam ser destrutivas e perigosas, não deixam de proporcionar cenas belas e, pelo menos para mim, fantásticas», conta o homem que em criança temia as tempestades e agora as persegue. E é um trabalho que tem merecido o reconhecimento internacional.

Da última expedição que fez aos Estados Unidos da América, resultou um filme curto, com menos de cinco minutos que soma 18 mil fotografias registadas com a técnica de time lapse. O trabalho tem por título «Atmós» e venceu o prémio mensal da italiana Oniros Film Wards, em dezembro.

«O vídeo relata o que aconteceu naqueles dias em que lá estive e permite-nos ter a noção de como se formam as tempestades. Com esta técnica, podemos ver o desenvolvimento desde as pequenas nuvens até ao expoente máximo, que são as super-células».

Por norma, «fotografamos com um ou dois segundos de intervalo entre cada exposição. Às vezes, mais, dependendo do que estamos a registar. Essa técnica permite-nos acelerar o tempo. Ao concentrar 25 ou 30 imagens por segundo, conseguimos observar em poucos segundos o que vimos em meia hora. Naqueles segundos, apercebemo-nos do desenvolvimento que a tempestade teve», explica.

Bruno Gonçalves fotografa sempre em formato de negativo digital (raw) que garante os melhores resultados na pós-produção. Mas a qualidade custa tempo. Render um filme de apenas quatro minutos a partir de um conjunto de milhares de fotografias demora quatro meses, tal é o processo de edição das imagem.

E o que leva um algarvio a perseguir tempestades nos EUA?

«Bem, eu teria os meus oito ou nove anos e um dia houve uma daquelas trovoadas raras no Algarve, que durou quase a noite inteira. Nessa altura, assustei-me e até me escondi debaixo dos lençóis. Mas deixou uma semente de interesse e curiosidade. Comecei a acompanhar as trovoadas à janela», recorda.

«Durante o curso de Engenharia do Ambiente, tive algumas cadeiras de meteorologia que me despertaram ainda mais o fascínio, porque me permitiram perceber um pouco como aquelas tempestades se formam e qual a sua origem. Ao fim e ao cabo, temos ali a física em ação perante os nossos olhos. Conseguimos saber como o vapor de uma gota de água se transforma numa nuvem e depois numa trovoada e em queda de granizo», conta ao barlavento.

Depois, «é interessante ver no terreno a teoria que aprendemos nas aulas. Mais tarde, quis aliar o registo à observação, adquirindo a primeira máquina fotográfica. Deixei de fotografar na varanda de casa para perseguir as trovoadas de carro. Entretanto, comecei a estudar as previsões, para tentar perceber onde iriam estar as tempestades. Foram alguns anos a fazer registos algarvios, embora discretos, a partir de 2007/2008».

Em 2012 resolveu criar um website (extrematmosfera.com) onde colocou o material que juntou, quer em vídeo, quer em fotografia, pese embora a qualidade modesta dos documentos.

Mas foi o suficiente para conhecer outros aficionados do mau tempo, até porque «há centenas de pessoas em Portugal com interesse, embora nem todas vão para a rua fotografar. Formou-se então um pequeno grupo de amigos. Queríamos um pouco mais do que apenas as tempestades portuguesas, as quais, felizmente para todos nós, não causam grandes estragos», brinca.

Influenciados pelos caçadores de tempestades que protagonizam alguns documentários televisivos, Bruno e os amigos decidiram ir experimentar uma verdadeira tempestade americana.

«Realizámos a primeira viagem em maio de 2015, através de uma associação que criámos, a Troposfera. Dessa viagem aos EUA resultou um documentário com alguns episódios, intitulado No caminho dos Tornados, onde relatámos toda a experiência», recorda.

«A primeira vez que se presencia aquelas tempestades é algo inacreditável. É tudo muito mais intenso, mais dinâmico, não tem nada a ver com a nossa realidade», compara.

Em 2018, regressaram e permaneceram quase um mês no famoso Tornado Alley, a zona central dos Estados Unidos onde ocorrem tornados com maior frequência. Dessa expedição resultou um novo documentário.

«Mas a vida não permite que se possa lá ir todos os anos, porque é um investimento grande. No ano passado, os meus colegas não puderam ir. Portanto, surgiu a oportunidade de me juntar a um caçador de tempestades muito conhecido, o fotógrafo e time-lapser norte-americano Mike Olbinski. Fui com o objetivo de aprender, não só nas áreas de previsões e zonas alvo, mas também na técnica de time-lapse. Estive lá dez dias, foi uma experiência inesquecível e consegui aprender muito também».

Foram os registos da experiência de 2019 que deram origem ao vídeo Atmós, que mereceu o prémio de dezembro da Oniros Film Wards.

Mas afinal, quando poderá custar uma experiência no Midwest americano, incluindo viagens de avião, hotéis, viaturas para as perseguições, entre outras despesas?

Segundo Bruno Gonçalves, se for através de uma agência americana especializada, pois já existe o turismo das tempestades, custará cerca de cinco mil euros. Bruno Gonçalves, contudo, gostaria de proporcionar a outros interessados ter essa «experiência única na vida» e está a organizar um grupo para viajar em maio. Resta saber o que trará na bagagem.