As origens da Imprensa Republicana no Algarve

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A ascensão da imprensa republicana ocorreu durante o último quartel do século XIX, no vórtice revolucionário da «Geração de 70», crescendo progressivamente em número de títulos, que cobriam quase todos os distritos do país, acentuando-se assim a sua penetração política e os seus níveis de influência nos meios citadinos, principalmente no seio do operariado, dos serviços terciários e da média burguesia. Esta última, por ser mais instruída e qualificada, constituiu a base de recrutamento dos quadros políticos do Partido Republicano, assim como o alfobre de onde surgiram os principais plumitivos republicanos, nomeadamente Basílio Teles, França Borges de «O Mundo», Brito Camacho de «A Luta», António José d’Almeida de «A República»…

Mas de todos esses notáveis publicistas houve um que marcou a diferença e contribuiu decisivamente para a implantação do novo regime. Refiro-me a João Chagas o mais cáustico de todos os plumitivos do seu tempo, que por reação ao «Ultimatum Inglês» fundou o jornal «República Portuguesa», cujos inflamados artigos de fundo suscitaram a revolução do «31 de Janeiro», no Porto, cidade que ao longo da nossa História foi sempre o verdadeiro empório da Liberdade.
A escalada republicana, no vinténio que precedeu a Revolução do 5 de Outubro, foi ininterrupta e persistentemente desacreditadora das instituições que alicerçavam o regime monárquico, combatendo com especial acuidade a Igreja e a Família Real, por serem causadoras do atraso civilizacional em que o país se achava mergulhado quase desde a sua fundação.

Para o incremento da ideologia republicana e para a implantação definitiva da República, posso afirmar sem rebuço que a imprensa desempenhou um papel preponderante, sobretudo em Lisboa e no Porto, mas também nas grandes cidades da província, nomeadamente em Coimbra, em cuja Universidade despontara o ideário republicano, e nas cidades industriais de Braga, Aveiro, Leiria e Setúbal, para além de outras menos populosas como Castelo-Branco, Évora, Beja e Faro.

Com a edição da «Chronica do Algarve», nasceu em 1833 a imprensa algarvia.

«Chronica do Algarve», nasceu a imprensa algarvia

Decorria o período das Lutas Liberais, quando em 15 de julho de 1833 surgiu, ainda que de forma bastante fugaz, o primeiro órgão da imprensa algarvia, sob a designação de «Chronica do Algarve», impresso em Faro, para noticiar os sucessos e avanços das forças liberais que desde o dia 24 de junho ocupavam a região. Quando os liberais decidiram anuir ao projeto de Charles Napier para invadir o Algarve – abrindo uma segunda frente de resistência ao miguelismo, mas agora no extremo sul de Portugal – pensaram na necessidade de editar um jornal.

Para isso compraram um prelo ao impressor Manuel António Ferreira, que também embarcou na frota invasora, para imprimir no Algarve não só um órgão de propaganda, como ainda todos os documentos oficiais emanados pelo Governador Militar, Duque da Terceira, ou pelo Governador Civil, Duque de Palmela.

Nesse prelo deveriam editar-se, em folhas volantes, as leis promulgadas na ilha Terceira pelo eminente jurista Mouzinho da Silveira.

Refiro-me às célebres leis que aboliram os pequenos vínculos (morgados até 200 mil réis), que extinguiram ou reduziram as sisas, que reformaram a administração pública, que extinguiram os forais, os dízimos e os bens da Coroa, entre outros diplomas igualmente importantes, como foi o caso da abolição do privilégio na organização das atividades económicas.

Estas leis constituíram os alicerces estruturantes do regime constitucional-parlamentar implantado pelo liberalismo em Portugal.

As tropas do Duque da Terceira, depois de desembarcarem no dia 24 de junho de 1833 na praia baía da Alagoa (actual praia da Altura), submeteram Vila Real e seguiram a estrada real para Faro.

A única confrontação militar ocorreu na ponte do Almargem, onde as tropas miguelistas foram destroçadas.

De Tavira prosseguiram até Olhão, onde foram recebidos triunfalmente, entrando depois em Faro, onde firmaram o seu quartel-general. Como o seu opositor militar, general Molellos, retirasse para Beja, ficou a estrada para Lisboa franqueada à investida final, que ocorreu em 24 de julho, ou seja um mês depois da invasão do Algarve.

Perante a rapidez dos acontecimentos militares, a edição do jornal «Chronica do Algarve» não passou do número inicial, datado de 15-7-1833 porque as tropas liberais partiram pouco depois para Lisboa, onde a 24 de julho alcançaram uma retumbante vitória militar. Por conseguinte, a imprensa algarvia nasceu de forma efémera, mas inspirada nos valores da liberdade, contra o privilégio e a distinção social.

Os ideais da revolução francesa permaneciam vivos nos corações dos bravos invasores liberais.

Não admira, pois, que os periódicos seguintes, a «Verdade Nua», publicado em Lagos (1840), e «O Popular – Jornal do Algarve», editado em Faro (1847), tivessem uma inspiração acentuadamente liberal e revolucionária, mantendo na sua primacial radícula a consciência política da esquerda rebelde e libertadora.

Este último, «O Popular», à imagem da «Chronica do Algarve», nasceu na esteira da segunda invasão do Algarve pelas tropas liberais, durante a guerra-civil da Patuleia. Existem apenas quatro dos 30 exemplares que então se deram a público na cidade de Faro, nos quais se relatava os confrontos decorrentes da guerra. É uma pena não podermos dispor hoje dessa importante fonte para o estudo da Patuleia no Algarve.

«O Echo do Algarve» – primeiro jornal republicano

Na esteira desse espírito, livre, independente e insubmisso, não admira que o terceiro jornal a ver a luz do prelo no Algarve tenha tido a ousadia de se apresentar como defensor do ideário republicano, o que, na época era quase um crime público. Foi, pois, sob a rebelde invocação da Liberdade e da conquista dos direitos e garantias do cidadão que nasceu, em 9-9-1868, na cidade de Lagos, o «Echo do Algarve», o primeiro jornal que nesta região se assumiu inquestionavelmente republicano. Sabemos que foi impresso na Tipografia Lacobrigense, cujo prelo, pelas deficiências de impressão, presumo que fosse antigo e bastante rudimentar. Pertencia a António Corrêa, o qual deve ter financiado a sua aquisição, já que antes nunca vira tal máquina nem percebia nada de artes gráficas.

O jornal era produzido, na velha arte da composição manual, por dois jovens improvisados tipógrafos que antes trabalhavam como alfaiate e carpinteiro. Mas não eram únicos, já que também ali trabalhavam mais dois aprendizes e dois impressores, que nunca antes tinham visto o rolo e o estrado do mais simples prelo. Era seu único redator José Teixeira Simões, que acumulava com as funções de administrador, revisor de ortografia e por vezes de tipógrafo. Vemos assim, que naquela tipografia tudo era improvisação e boa-vontade, certamente irmanados pelo espírito republicano que os impelia a clamar por mais liberdade e justiça social.

Apesar de todas as dificuldades, logísticas e financeiras, o jornal foi saindo a público, sempre com ferozes ataques à Igreja e ao clericalismo obscurantista, à Coroa e ao daninho luxo da Corte, à exploração dos pescadores pela Companhia de Pescarias, ao atraso científico no amanho dos campos e ao analfabetismo.

As lutas eleitorais foram também assunto de especial enfoque, de tal forma que defendeu a candidatura a deputado de Sebastião Coelho de Carvalho, pelo Partido Histórico (sempre conhecido por Partido Progressista), contra um argentário de nome Alves d’Araújo, que ninguém conhecia na região, proposto pelo governo ao círculo eleitoral do Barlavento algarvio.

Em plena guerra-civil da Patuleia, publicou-se em 1847, na cidade de Faro «O Popular», que foi, na verdade, o primeiro órgão da imprensa algarvia.

O seu acintoso jornalismo, cuja inspiração política era uma mescla socialista e republicana, foi abertamente criticado pelo Governador Civil que assumiu o triste papel de caixa de ressonância do regalismo monárquico, dando cobertura a uma pertinaz e aleivosa onda de calúnias emanada pela eclésia lacobrigense, de tal forma violenta que suscitou o assalto à tipografia, despejando as caixas dos tipos (caracteres tipográficos), e destruindo o material de impressão, o que não só atrasava a edição como obrigava por vezes o «Echo de Lagos» a sair a público com apenas uma folha de duas páginas, para relatar os soezes acontecimentos de que era persistente alvo. Mercê dessas perseguições, o jornal deu a alma ao criador em 23-5-1868, ao cabo de 38 edições.

O facto do primeiro jornal republicano algarvio ter visto a luz do prelo na cidade de Lagos deverá estar relacionado com a existência de uma elite local de cariz político-cultural, cujas origens se prendem com uma estirpe revolucionária visível desde 1816 na formação de uma loja maçónica designada por «Philantropia ao Oriente de Lagos n.º 2600», que se manteve ativa até 1823, sendo os seus membros pronunciados na Devassa instaurada em 14-1-1824, pela Intendência Geral da Polícia (1).

Constatei recentemente que o número dos maçons, pertencentes à loja «Filantropia», era porém superior aos trinta cidadãos inicialmente pronunciados na chamada Devassa de Lagos (2). Em 1842 esta loja maçónica, subordinada ao Grande Oriente Lusitano, foi restaurada com a mesma designação. Todavia, em 1844, já não existia, sendo então instaurada uma nova loja maçónica com a designação de «Concórdia II n.º 4200», a qual em 1848 abateu colunas, para as reerguer no ano seguinte mercê da constituição do Grande Oriente de Portugal (3).

Já agora, devo acrescentar que a maçonaria em Lagos durante o período da Regeneração quase não se deu pela sua existência, mas em 1905 existia um triângulo muito ativo que trabalhou na preparação da revolução republicana, tendo-se em 1911 formado uma loja com a designação de «Lacóbriga n.º 326», que se manteve ativa até à instauração da ditadura militar em 1926.

Importa acrescentar que a cidade de Lagos foi no século XIX e até sensivelmente ao fim da I República, um verdadeiro alfobre de notáveis jornalistas e escritores, areópago de brilhantes intelectuais que muito dignificaram a cultura algarvia.

Aproveito o ensejo para aqui lembrar, num breve exercício de memória, alguns eméritos publicistas da praça lacobrigense, como Bartolomeu Salazar Moscoso, João Bonança, Jeronymo Bicker Cabral, Afonso Cañet de Castro, António Cabreira, José Joaquim Nunes, António Joaquim Correia Júnior, Augusto Feio Soares de Azevedo, João Pedro Correia Tello, António Augusto Lobo de Miranda, Joaquim José Serpa, José António Guerreiro Gascon, José Bento Formosinho, António Sabino Simões Neto, Júlio Dantas entre tantos outros.

Notas:

1) A relação dos seus membros, em número de trinta, foi publicada por Manoel João Paulo Rocha, Monographia – As forças militares de Lagos nas guerras da Restauração e Peninsular e nas pugnas pela Liberdade, Porto, 1910, p. 403.
2) ANTT, Desembargo do Paço, Processos Diversos (Maçonaria de Lagos), Maço 829, nºs 97-108.
3) Cf. A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, 2 vols., Lisboa, Editorial Delta, 1986, vol. II, cols. N.º 826-827.

José Carlos Vilhena Mesquita | Professor universitário e historiador