Antigamente é que… crónica de um serão na aldeia

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Uma noite destas, de verão quente como antigamente, num belo serão sustentado por cerveja e gin tónico, a conversa derivou, talvez por falta de assunto, para o confronto de ideias que comparava o presente com o passado.

Uma das teses em presença tentava demonstrar que hoje existe uma degradação moral, económica, social, artística e política, uma corrupção generalizada que não acontecia no passado: falava-se de falta de valores, de orientação, de causas, de ideais, de humanidade, de clima em sentido plurissignificativo, etc.

Contrariando essa tese, um dos convivas, recorrendo à Utopia for Realists, de Rutger Bregman, enquanto sorvia a cerveja, citava: «uma pequena lição de História: no passado, tudo era pior. Durante 99 por cento da História, 99 por cento da humanidade era pobre, faminta, suja, amedrontada, ignorante, doente e feia (…) mas nos últimos 200 anos tudo mudou. Em 1820, 84 por cento da população mundial vivia em extrema pobreza, em 1981 essa percentagem baixou para 44 por cento e agora, passadas somente algumas décadas, está abaixo dos 10 por cento. Mantendo-se a tendência, a pobreza extrema acabará erradicada. Aqueles que continuaremos a chamar pobres terão uma abundância sem precedentes. Na Holanda, país onde vivo, um sem-abrigo que receba assistência pública tem mais para gastar do que um cidadão médio holandês em 1950, e quatro vezes mais do que os holandeses da chamada Época Dourada, quando o país dominava os sete mares».

Mas o defensor desta postura fez também notar que o citado Bregman alertava para uma questão elementar: se os números nos fazem sorrir, os resultados estarão sempre aquém da dignidade inerente à condição humana.

A fome será sempre uma tragédia, uma vergonha universal. Com uma agravante, citando o mesmo autor: «nestes dias há mais gente no mundo a sofrer de obesidade do que de fome». Por isso, o copo de novo bem cheio, o nosso seroeiro concluía:

— Devemos lutar e não ficar acomodados: o progresso e a perfeição são lentos e não podemos exultar pelas conquistas alcançadas.

Ia a conversa nestes termos, quando alguém pretendeu resumir a disputa:

-Está tudo mal à nossa volta, mas muito melhor do que estava, mesmo descontando a imbecil existência de Bolsonaro ou de Trump. – E, logo após generosa golada de gin-tónico – Aliás, a ideia de que o passado é melhor do que o presente é um engodo e só poderá redundar em catástrofe. Mas, de facto, tem-se mostrado uma ideia apelativa que se repete também com regozijo.

Entrou-se, a partir daí, numa interessante partilha do contraditório como modo de avaliar o passado e o presente.

Retenho algumas observações que fizeram as delícias desse serão, nas quais o amigo leitor poderá reconhecer-se.

O tempo em que se jogava ao pião era melhor do que o tempo em que se joga numa consola. Pois, mas era também o tempo em que a tia morria de escarlatina ou tuberculose e o irmão com poliomielite.

Felizmente havia berlindes e caricas e éramos todos mais humanos. Pois, mas as mulheres não votavam.

«Em meus tempos de criança», a leitura era uma encantação e lia-se continuamente e avidamente um mundo de histórias; lia-se corrido, isto é, frase após frase, do princípio ao fim.

As crianças de hoje não se acostumam a ler correntemente, porque apenas manipulam avidamente jogos digitais, limitando-se a uma fraseologia de guinchos e uivos, simples frases interjetivas e, por vezes, incorretas, uma subliteratura de homem das cavernas. Bem, aqui entrou em cena uma espécie de consenso, pois a crítica ao tempo presente estendeu-se pelo campo das redes sociais, dos jogos digitais, das mensagens em menos de meias palavras, das conversas virtuais.

De toda esta deliciosa disputa bem regada, ficou-me a impressão de que o confronto entre gerações (partindo do princípio de que todas as gerações têm sido rascas, cada uma à sua maneira) tem a vantagem de manter um espírito crítico em relação à contemporaneidade, apesar da premissa falsa de que o passado era melhor do que o presente. E a popularidade desta questão terá muito a ver com o modo como olhamos para o tempo. Mas isso é assunto para outro serão na aldeia.

Manuel da Luz | Cidadão algarvio