Aeroporto de Faro: Uma confusão algarvia nas redes sociais

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As redes sociais tornaram-se o meio mais imediato para expressarmos as nossas opiniões, mas a verdade é que hoje em dia também nos ofendemos muito facilmente.

Gerir a comunicação digital de uma marca não é para todos, e criar conteúdo relevante é tudo menos fácil. Qualquer assunto minimamente sensível se pode tornar polémico e ganhar uma dimensão viral. De repente, damos por nós com uma situação de crise em mãos.

Os “prints” deste anúncio têm incendiado as redes sociais e as vozes críticas surgem de todos os lados, servindo de tópico para os partidos políticos em modo de campanha eleitoral.

O anúncio publicado pela página de Facebook do Aeroporto de Faro teria tudo para ser considerado normal, se fosse criado por uma agência de viagens ou operador turístico. Só que não.

Vamos lá perceber porquê:

O que se espera de um Aeroporto? Que tipo de conteúdos publicar? Em primeiro lugar informações úteis sobre o Aeroporto, digo eu. Conteúdos sobre a cidade e sobre a região, destinados aos turistas que nos visitam, seriam na minha opinião adequados e interessantes. Inspiração para viagens? Ok, também faz sentido. Afinal quem não aspira viajar?

Mas vamos lá pensar: que aeroporto é este? Um aeroporto que tem crescido mais com a exportação de turistas, ou com a importação?

Quem serão os seus principais utilizadores? Esta é uma resposta tão óbvia, que não precisamos de grandes dados para a suportar. O Algarve é indiscutivelmente uma grande potência turística e económica do nosso país.

É, por isso, revoltante ver a presença digital desta infraestrutura pública a promover um destino turístico concorrente. «Marinas»? Temos. «Praias»? Temos. «Água transparente»? Temos. E «Calor»? Também temos!

O problema do anúncio está essencialmente no texto publicado, pois não haveria qualquer polémica na promoção de rotas a partir de Faro.

Segundo algumas notícias, a página tinha outras campanhas (agora já inativas) promovendo diversos destinos sem fazer qualquer comparação com o Algarve.

Concordamos todos que foi desnecessário utilizar este argumento da «confusão algarvia».

Para quê desvalorizar o maior destino turístico do nosso país?

No dia em que todos quiserem fugir do Algarve, a maioria da população algarvia e o próprio Aeroporto vão sobreviver como?

Depois, o Algarve não é todo igual. É uma região, não é uma cidade!

Em Faro temos as magníficas ilhas da Ria Formosa, onde, nem em agosto, há confusão.

Em Monchique temos as belíssimas Caldas, onde a água continua a correr fresca e onde podemos desfrutar de um silêncio e uma paz que não tem comparação… e por aí adiante.

Caros lisboetas que gerem campanhas de redes sociais para o Algarve: venham conhecer esta bela região, sem virem só para «a» Quarteira ou «o» Alvor na primeira quinzena de agosto, e percebam que nem tudo é confusão. Há muito mais para descobrir…

A voz e o tom são aspetos importantes a definir quando comunicamos no digital.

Quando se gere uma marca nas redes sociais é preciso entender que entidade estamos a representar e qual o seu target.

A linguagem informal que encontramos no anúncio, utilizando as expressões «Foge» e «descansa», não me parece adequada para a página de um aeroporto.

Tratar o destinatário da campanha por tu seria uma forma mais própria de nos dirigirmos a um público juvenil, por exemplo, própria para divulgar um festival de verão.

O que não é o caso.

A agência Brandworkers já veio a público assumir a responsabilidade e até informar que o anúncio tinha sido recusado pelo cliente (grave!).

Mas para mim, esta agência teve uma postura correta em situação de crise (talvez pressionada, suspeito) e fez aquilo que recomendo aos meus clientes e formandos:

  1. Assumir o erro e a responsabilidade com transparência;
  2. Demonstrar compreensão pelo impacto desse erro;
  3. Pedir desculpa;
  4. Abrir o diálogo para mais esclarecimentos;
  5. Não apagar logo os comentários para não incendiar mais a discussão

Esperava ver a mesma atitude na página do Aeroporto de Faro.

Aproveito para tocar numa outra questão: ainda está enraizado o preconceito de que para ter um bom serviço é preciso ir a Lisboa.

Um bom médico? Lisboa. Um bom dentista? Lisboa. Uma boa agência de marketing? Lisboa.

Teria isto acontecido caso o Aeroporto de Faro trabalhasse com uma agência local? Provavelmente não.

Rita Sampaio | Consultora e Formadora em Marketing Digital