A gestão da água: o maior desafio que o Algarve tem pela frente

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Apesar de já ter estado ligado à gestão deste bem público no plano municipal – mais precisamente à sua componente comercial – estou muito longe de considerar-me um entendido na matéria. Por isso, o que vou escrever sobre a Água traduz, tão-somente, a perspetiva de alguém que se preocupa com o Algarve e a de um consumidor de um bem essencial à vida. Não mais que isso.

Feita esta ressalva, começo esta crónica por afirmar o óbvio. Ou seja, a Água é um bem escasso no Algarve – diria mesmo muito escasso quando em comparação com os países do norte da Europa – o que justifica que a sua utilização deva ser efetuada de forma muito criteriosa.

Para mais que a nossa região, com o advento do Turismo e a intensificação das culturas de regadio, se transformou num território em que o consumo da Água é superior à reposição que é efetuada pelas chuvas, pelo que a sua diminuição drástica comprometerá a sustentabilidade do nosso modelo de desenvolvimento económico regional.

A solução que se me afigura como viável para garantir que a Água não irá faltar no futuro ao Algarve – que na verdade é um mix de soluções – passa, em minha opinião, por consumirmos menos água; aproveitarmos as águas residuais para rega e para outras funções menos «nobres»; aproveitarmos todos os cursos e fontes de água que dispomos, assegurando a sua dimensão ecológica. E dessalinizar. Mas vamos por partes.

A poupança assenta, necessariamente, na alteração dos hábitos de consumo de todos nós. Entidades públicas. Empresas. E cidadãos. Mas como podemos promover essa mudança, quando observamos jardins públicos a serem regados em pleno dia, quando à noite é mais eficiente, ou em dias de chuva?

Ou continuar-se a licenciar moradias unifamiliares com piscina?

Ou sabermos que se perdem-se milhões de metros cúbicos de água, por ano, ao nível do armazenamento, do transporte e na distribuição, e que muito pouco é feito para evitar isso? Enquanto tudo isto acontecer, parece-me muito difícil convencer os cidadãos e as empresas a pouparem água.

O exemplo, como em muitos outros domínios, tem que começar no Estado. Se assim não for…

Quanto à reutilização da água, sejamos claros, está ainda quase tudo por fazer. E não se afigura que tal venha a ser uma prioridade do investimento público.

Os montantes necessários para tratar os esgotos, até que esta água esteja em condições de ser utilizada para rega ou fins similares, e para criar-se uma rede de distribuição específica para esta água são de tal modo elevados que duvido que haja alguma autarquia no Algarve capaz de passar dos anúncios para a sua concretização.

No que respeita ao aproveitamento dos cursos de água, reportando-me concretamente aos nascentes e fontanários, causa-me estranheza ver o quanto estes são tão mal aproveitados.

É inaceitável que muitos corram a céu aberto, dia após dia, sem que a essa água lhe seja dada qualquer utilização.

Quando a mesma poderia, por exemplo, ser aproveitada para regar espaços públicos ou para o abastecimento de viaturas para combate aos fogos.

Creio que aqui existe muito trabalho que pode ser efetuado, com resultados quase imediatos.

Há pois que pôr mãos à obra.

Em relação à dessalinização, onde no Algarve também está tudo por fazer, apesar de possuímos algumas vantagens, mais não seja pela proximidade que temos ao mar, não podemos deixar de considerar os impactos ambientais e os elevados custos que estão associados à construção de centrais de dessalinização.

Pelo que não podendo esta medida ser descartada, devemos somente criar as centrais que sejam tidas como estritamente necessárias para assegurar o fornecimento de água sem falhas. E não mais.

Com este retrato, feito muito sucintamente, no qual é traçado um quadro muito dramático para a nossa região, ficamos como a noção que a solução para o problema da Água, no Algarve, é muito difícil.

Mas quando propus-me escrever sobre este assunto, a minha ideia era precisamente essa.

Demonstrar que não há uma solução única ou fácil para esta problemática, mas que existe um mix de soluções.

E que a liderança deste desafio precisa de ser assumida pelas entidades públicas que têm atribuições e competências legais neste domínio.

Assim, no caso do Algarve, a liderança deste processa passa pela empresa Águas do Algarve, a quem está atribuída a gestão da água em alta – da origem até aos depósitos – e aos municípios (diretamente ou sob a forma empresarial), a quem cabe a gestão em baixa – do depósito (inclusive) até à torneira das nossas casas – os quais precisam de operacionalizar, em conjunto e o quanto antes, o plano de ação que certamente terão para garantir que a água nunca faltará no dia a dia dos algarvios.

Um plano que carece de ser largamente publicitado, para que todos, e cada um de nós, saibam o papel que lhe cabe desempenhar.

Pois só assim conseguiremos vencer aquele que é o maior desafio que o Algarve tem pela frente neste século – garantir a disponibilidade de água potável para as suas populações – e continuemos a ser um dos lugares mais aprazíveis que existem, em todo o mundo, para se viver.