Poucos sabem que a bebida refrigerante mais famosa do mundo que se consome em Portugal é produzida em Azeitão, com recurso a ingredientes nacionais. Apesar da internacionalização e de produzir um portfolio de bebidas quer para o mercado interno, quer para o mercado ibérico, a Coca-Cola Iberian Partners é uma empresa que se assume como portuguesa. Neste contexto, o Algarve é um mercado que tem a capacidade de influenciar diretamente as linhas de produção da unidade fabril, segundo explicou ao «barlavento» Márcio Cruz, gerente de relações externas e comunicação da empresa.
«A delegação do Algarve, em Loulé, existe desde 1977, tendo sido uma das primeiras no país. As regiões são para nós extremamente importantes», assegurou. A nível local, emprega uma equipa direta de mais de vinte pessoas, cem por cento algarvia, e a região é responsável por picos na procura.
«É evidente que se uma região passa de meio milhão de habitantes para cinco milhões, como no ano passado, seguramente isso tem consequências na nossa produção». Em termos concretos, Márcio Cruz reconhece que o consumo aumenta durante os meses de verão em todo o país. No entanto, «o Algarve tem um pico dez vezes superior» ao resto do território, revelou.
«Nos meses de junho, julho e agosto fazemos 54 por cento do volume total por ano do Algarve. Ou seja, em rentabilidade, se fôssemos economistas e financeiros puros, diríamos que seria preferível ir lá vender três meses e não tínhamos custos no resto do ano» comparou Márcio Cruz. Esta não é, contudo, a política da empresa portuguesa, pois os responsáveis acreditam que o Algarve não é só sol e praia. «É importante estarmos presentes todo o inverno a manter a relação com os nossos clientes, ajudá-los a ultrapassar essa fase, para que quando chegar o verão, estejamos completamente preparados para lhes poder satisfazer as necessidades», afiançou.
O aumento da população torna, para a Iberian Partners, estes três meses numa «operação muito dura», mas a empresa preocupa-se em manter os postos de trabalho, quer em época alta, quer na baixa. «No Algarve, não contratamos pessoas temporárias. Ou seja, as pessoas que temos e que já estão connosco há algum tempo, mantemo-las durante o ano. Adaptamo-nos à realidade. Há quem tire férias de forma a conseguirmos conciliar» a operação, explicou.
Há, porém, outra curiosidade assinalada por Márcio Cruz, que se verifica no Algarve. Numa região de turismo, a primeira ideia que surge é que a Coca-Cola é, dentro do portfolio de bebidas produzidas sob a insígnia desta marca, a que tem mais peso. Na realidade, o Algarve é das regiões do país que tem melhor comportamento nas outras marcas, quando comparada a outras regiões, como o Porto ou Lisboa.
Por norma, a diferença entre o consumo de Coca-Cola e as restantes bebidas (Fanta, Sprite e Néstea, por exemplo)» é muito grande. Na região mais a sul de Portugal, «44 por cento do volume é feito só em Coca-Cola e os restantes são com todas as outras marcas, nas quais se incluem também a Coca-Cola zero e a Coca-Cola light». Aliás, a Diet Coke ou light é feita quase em exclusivo para a região. Nesse caso, segundo Márcio Cruz, o turismo tem muita influência, porque estes são produtos a que o turista estrangeiro está muito habituado. «90 por cento da Coca-Cola light que produzimos é para o Algarve», revelou.
A Iberian Partners está presente no mercado, através de dois canais de distribuição – os supermercados e a restauração/hotelaria. «A fábrica produz as bebidas, guardando-as depois no armazém central, e, todos os dias, são feitos os pedidos. Durante a época baixa, temos um camião a sair do armazém central com destino ao Algarve para a distribuição capilar, em hipermercados. No verão, são entre quatro a cinco camiões, só para o Algarve. Depois há o canal HORECA, para hotéis, restaurantes e cafés, em que a distribuição é feita a cada ponto de venda», explicou.
Portugal, quando comparado com outros países, tem o consumo per capita de Coca-Cola dos mais baixos da Europa. Não há uma distinção da importância dos mercados, mas há uma adaptação de estratégia em relação a cada canal de distribuição, com formas de atuação distintas, considerou.
A que tem mais necessidade de consumo é o mercado alimentar, continuando a ser o que mais peso tem na estrutura da empresa nacional, enquanto o canal HORECA é mais trabalhoso. Este aspeto está ainda relacionado com o comportamento do consumidor, que, cada vez mais, vive a chamada cultura de apartamento. «Hoje, já temos em casa melhores condições do que em muitos estabelecimentos, o que faz com que as pessoas não saiam tanto». Uma alteração nos hábitos, pois há alguns anos, reuniam-se em cafés, socializavam mais e acabavam por consumir mais na rua.
Vidro exclusivo para hotelaria e restauração
A garrafa de Coca-Cola em vidro é uma forte aposta da Iberian Partners. É um elemento diferenciador entre o consumo em casa ou na rua. «Somos a única empresa em Portugal que ainda continua a brindar a hotelaria e restauração com dois formatos exclusivos. Um deles é o vidro, e o outro é a lata prestige, mais estreita e mais alta, que lançámos para o mercado português». «A experiência de ter o contacto com uma garrafa de vidro, o copo, o gelo, o limão» é algo que valoriza a experiência do consumidor e que na perspetiva da empresa, é uma mais-valia para a restauração. Márcio Cruz reconhece que há resistências a esta estratégia, «tendo em conta a alta sazonalidade do Algarve, os nossos pontos de venda estão muito habituados a serviço rápido, prático, pouco trabalhoso», explicou. É mais fácil colocar a lata em cima da mesa, do que manusear e reutilizar o vidro.
A grande novidade este ano é o lançamento da garrafa de 350 ml que substitui a garrafa de 330 ml. No início de 2016, todo o parque de vasilhame foi substituído, um «mega-investimento da empresa», segundo Márcio Cruz. A aposta também se estende à garrafa de 237 ml, uma recriação do formato americano original (oito onças). «Para nós é motivo de orgulho o vidro ser produzido em Portugal, pela Barbosa e Almeida, uma empresa da Marinha Grande, que também fornece Espanha».
Dar a conhecer a gastronomia portuguesa
Questionado sobre o festival que está prestes a arrancar, «percebemos que o turismo e a gastronomia são uma das maiores fontes de receita do nosso país. E, portanto, estamos a tentar dinamizar e a gerar tráfego aos nossos clientes, para que se reinventem, para que melhorem os seus negócios», explica Márcio Cruz. O festival propõe um menu, que inclui um prato típico regional acompanhado por uma Coca-Cola, de garrafa de vidro. Este ano decorre em 14 regiões, cabendo aos clientes dos restaurantes participantes, votar os melhores que estarão presentes na grande final, em Lisboa. «Pretendemos com isto gerar tráfego aos nossos clientes e dinamizar os seus pontos de venda. Queremos que seja uma forma de vender a qualidade do seu trabalho e serviço, porque têm que estar predispostos à votação dos consumidores nos seus restaurantes. É uma oportunidade para que se reinventem, para que melhorem os seus negócios», opina. Além disso, é «uma oportunidade de darmos a conhecer aquilo que de melhor se faz em Portugal e neste caso, no Algarve». «É um feito único e extraordinário para uma marca que, apesar de termos uma fábrica em Portugal, somos sempre vistos como uma marca americana».
«Choquinhos à Algarvia» é o prato em destaque
«Choquinhos à algarvia» é o prato em destaque nos restaurantes da região que aderirem à segunda edição do festival «Adoramos a nossa Gastronomia com Coca-Cola» que regressa ao Algarve entre os dias 16 de maio a 5 de junho. Esta iniciativa surgiu o ano passado com o objetivo de valorizar a cultura gastronómica portuguesa. Entre abril e junho de 2015, participaram mais de 1200 restaurantes de norte a sul de Portugal continental, Açores e Madeira, nas etapas regionais desta iniciativa organizada pela Coca-Cola, apresentando as suas versões dos pratos típicos de cada região. A final aconteceu em outubro, no Meo Arena, em Lisboa, juntando 13 pratos e restaurantes de todo o país. O Algarve foi representado pelo restaurante Zizá, de Portimão. Este ano, o evento volta a contar com o apoio institucional da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal. Os embaixadores são a fadista Katia Guerreiro e o chef Tiago Bonito, profissional que recentemente trocou o Algarve pela capital, onde abriu um espaço de referência.
Empresa global acolhe ideias portuguesas
Segundo Márcio Cruz, gerente de relações externas e comunicação da Iberian Partners, «há campanhas internacionais da marca que nascem em Portugal. A Coca-Cola é uma empresa global, mas tem uma particularidade. Está muito preocupada com o mercado local. Qualquer ideia promocional não surge apenas de Atlanta», cidade norte-americana onde se situa a sede e onde nasceu a bebida. Por exemplo, «o festival de gastronomia é uma iniciativa exclusivamente portuguesa. Estamos a organizar a segunda edição. Neste momento é um business case para a Coca-Cola de como trabalhar o local e o país. É um dos grandes exemplos que estamos a dar, pela riqueza da gastronomia de Portugal, e é uma ideia que a Coca-Cola estuda, por ter saído de um país como o nosso. Já se considera e já se avalia ser replicada noutros países». Outro exemplo, «a campanha do Euro2016 é transversal nos 221 países onde estamos presentes, e não vamos utilizar o mesmo que no resto da Europa. Vamos ter algo exclusivamente nacional».
Aquífero abastece fábrica
A Coca-Cola Iberian Partners está presente em Portugal desde 1977 com a Refrige, unidade industrial da Quinta da Salmoura, em Azeitão. no concelho de Setúbal. Esta fábrica situa-se por cima do aquífero da Bacia do Tejo-Sado/Margem Esquerda (T3), do qual se abastece a partir de cinco furos. É autossuficiente e não necessita da rede municipal. «A água passa por um ciclo de processos de limpeza de cloro e odores para ser usada na produção», explica Cátia Silva, guia das visitas à fábrica. Uma parte do consumo «serve também para a lavagem e produção de vapor» para a esterilização das embalagens. «Até 2020 temos um objetivo muito forte» de reduzir o desperdício e tornar a gestão deste recurso mais eficiente. «Queremos produzir um litro de Coca-Cola para cada litro de água. Isto é muito difícil. A clássica tem 87 por cento de água. A zero tem 99 por cento de água. Neste momento, gastamos cerca de litro e meio de água para produzir um litro da bebida», acrescenta Rita Churra, responsável das relações externas e comunicação. Ainda sobre a parte ambiental, «a água que é usada para lavar as embalagens e os vidros é tratada em ETAR própria para ser depois devolvida ao meio-ambiente». Uma parte é reaproveitada e volta ao circuito. Esta unidade tem capacidade para produzir 800 mil litros por dia.
Segredo vem da Irlanda em xarope
A noz-de-cola, estimulante natural, é um dos ingredientes da Coca-Cola. No entanto, a fórmula da bebida é um segredo bem guardado e não está em Portugal. Uma unidade de produção na Irlanda exporta o concentrado (em xarope) que é a base da Coca-Cola. Vem por camião até Azeitão e é armazenado numa sala com doze tanques com capacidade para 20 mil litros. «Qualquer um deles pode produzir qualquer uma das nossas bebidas, embora tenhamos sempre dois a produzir Coca-Cola, 24 horas por dia, com é óbvio», sublinha Rita Churra. «Isto é uma forma de a bebida ser universal à volta do mundo. Este concentrado é a bebida em formato bruto. Aqui acrescentamos a água, o açúcar e o dióxido de carbono. No fundo, são estas as três matérias-primas que adicionamos aos concentrados», explica Cátia Silva. Numa primeira fase, são adicionadas ao xarope «a água e o açúcar, isto é, a calda, a altas temperaturas. É a primeira diluição. Mas a bebida só vai ser terminada na linha de enchimento». «O sistema mantém-se fiel desde o início. A Coca-Cola fornece-nos o xarope e nós produzimos a bebida localmente. Enquanto engarrafadores fazemos todo o processo de enchimento, comercialização e distribuição das marcas da companhia Coca-Cola», explica Márcio Cruz. Esta operação envolve seis delegações em Portugal Continental e ilhas, mais de 400 colaboradores diretos e uma vasta rede de distribuidores, que comercializam mais de 197 milhões de litros por ano.
Capacidade operacional para 90 mil latas/hora
A fábrica de Azeitão tem capacidade de produção/hora na linha de vidro retornável (linha 4) para 40 mil unidades de 350ml, e 45 000 unidades de 237ml. Na linha três, consegue fazer o enchimento de 90 mil latas de 0,33 cl por hora. «A mais comum em Portugal é a chamada lata gorda. Já chegam à fábrica vazias e abertas, isto é, estruturadas. São enxaguadas, secas e entram na enchedora que mistura o xarope, a água e o gás», explica Cátia Silva. Logo de seguida são fechadas e passam por um inspetor de cheio que verifica o nível de líquido e a selagem. «Se houver algum defeito, a lata é rejeitada. Caso contrário, avança para a zona de armazém, onde é embalada e colocada em palete».
Controlo de qualidade exigente
O controlo de qualidade é feito em laboratório próprio, que analisa todos os materiais e ingredientes. Os técnicos são responsáveis pela qualidade e pela segurança das linhas de enchimento, segundo Cátia Silva. São tiradas cerca de 800 amostras por dia e cada lote só sai da fábrica quando aprovado. «Fazemos análises mais profundas, microbiológicas à água, que é o nosso ingrediente mais importante», acrescenta Rita Churra. «A parte do açúcar também é testado para garantir que está dentro dos nossos parâmetros. Os xaropes quando chegam da Irlanda são sempre verificados».
Porta aberta a visitas
Embora já receba visitas desde 2000, a «Fábrica da Felicidade» criou um sistema de visitas guiadas, em 2012, seguindo a estratégia de comunicação implementada nesse ano. Para Márcio Cruz, «surge também em resposta a uma batalha. As pessoas olham para nós como marca internacional e não reconhecem que a Coca-Cola
tem uma fábrica em Portugal. Ainda existe esta barreira. Isto é uma forma eficaz de dar a conhecer a nossa transparência. É uma forma muito prática e eficaz de podermos conviver com o consumidor, com quem quer que seja, num ambiente mais informal, tranquilo e de retirar os mitos de forma muito simples», diz. «Para nós é importante desmitificar porque somos uma marca-bandeira. Quando se fala em refrigerantes, é a marca Coca-Cola que aparece e, muitas vezes, em contextos que nada têm a ver com a realidade, para o bem e para o mal. Isto dá-nos a oportunidade de responder de forma clara, sem mitos e sem rodeios». A visita inclui uma sessão de cinema privativo (com versão 3D para o público adolescente) e uma explicação dos vários processos de produção. A participação é gratuita, sendo apenas necessário marcar com antecedência.