José Adriano Gago Vitorino, figura incontornável da história política e associativa do Algarve nas últimas cinco décadas, faleceu esta tarde em casa, em Faro.
Personalidade irreverente e de pensamento próprio, José Vitorino deixa um percurso marcado por uma dedicação permanente à região, mesmo depois de encerrado o seu ciclo na política institucional.
Deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1985, foi presidente do PSD Algarve, Governador Civil do distrito de Faro em 1980 e secretário de Estado das Comunidades no VIII Governo Constitucional, liderado por Francisco Pinto Balsemão.
Entre 2002 e 2005 presidiu à Câmara Municipal de Faro, eleito como independente nas listas do PSD.
O seu legado mais duradouro terá sido a iniciativa legislativa que criou a Universidade do Algarve, da qual foi o primeiro subscritor.
Cristóvão Norte, presidente do PSD Algarve, ouvido pelo barlavento, elogia o contributo que deu à região: «José Vitorino é uma figura relevantíssima da história dos últimos 50 anos do Algarve. E não é apenas pelos cargos que ocupou».
Para Norte, há uma marca que se sobrepõe a todas as outras. «Era o primeiro subscritor, e o meu pai, o segundo subscritor, do projeto de lei para a criação da Universidade do Algarve. Podiam ter sido outras, é verdade, mas foram eles».
«Se a história for feita com justiça, as duas maiores pessoas, desse ponto de vista, na Assembleia da República, são ele e o meu pai», afirmou.
O líder do PSD Algarve destacou ainda o sentido regionalista que sempre pautou José Vitorino. «Uma das suas marcas foi esse sentido de luta regional. De querer uma região com autonomia, não subjugada, e que pudesse, obviamente integrada no país, tomar muitas das decisões fundamentais para o seu futuro».
Depois de sair do PSD em 1985, na sequência da ascensão de Cavaco Silva à liderança do partido, José Vitorino nunca abandonou a vida pública.
Criou o Movimento para a Regionalização do Algarve (MRA) e, mais recentemente, fundou a Associação Algfuturo – União Empresarial do Algarve.
Para Cristóvão Norte, esse percurso pós-político diz muito sobre o homem: «Muitas das pessoas que estão na política, quando saem nunca mais se metem em nada que tenha a ver com vida pública. Ele nunca fez isso».
Questionado sobre o seu carácter, Norte não fugiu à complexidade da figura: «Era teimoso, para o mau e para o bom. Mas nunca desistiu do Algarve. É uma questão de convicção, de querer fazer as coisas, de querer levá-las para a frente. Isso é um valor muito grande.»
Nas eleições autárquicas de 2009, José Vitorino concorreu novamente à Câmara de Faro através do Grupo de Cidadãos «Vitorino com Faro no Coração». Em 2013, repetiu a candidatura sob o nome do Grupo de Cidadãos, «Vitorino – Salvar Faro, Com Coração».
Em 2022, José Vitorino publicou a sua autobiografia com 640 páginas, um retrato do seu percurso e da história do Algarve e de Portugal no primeiro meio século de democracia.
Foto: Bruno Filipe Pires