A expedição científica ao banco de Gorringe encerrou com um alerta para a urgência de proteção efetiva perante sinais preocupantes.
A expedição científica que durante três semanas, entre 07 e 28 de setembro, fez um levantamento da biodiversidade do banco de Gorringe, a maior montanha submarina de Portugal, encerrou com a celebração da riqueza biológica e com um alerta para a urgência de proteção efetiva perante sinais preocupantes.
A expedição permitiu conhecer zonas nunca antes exploradas, com espécies e habitats prioritários para a conservação, como jardins de corais e florestas marinhas ricas, oásis de biodiversidade.
Os cerca de 30 cientistas de 14 centros de investigação que trabalharam na expedição, a maioria a bordo do antigo navio bacalhoeiro Santa Maria Manuela, para estudar o banco de Gorringe registaram pelo menos 200 espécies, das quais mais de 40 não tinham sido ainda encontradas nesta área, observaram 12 espécies de aves marinhas, pelo menos sete espécies de cetáceos, 55 espécies de algas, 12 espécies de corais, 36 espécies de peixes e 523 tipos de invertebrados.
Uma das joias da coroa das descobertas é uma concentração de grande número de raias elétricas, denominadas tremelgas, todas fêmeas e muitas delas grávidas, e embora não se sabendo ainda a razão para esta agregação, a mesma sugere que o banco de Gorring possa ter um papel essencial para a reprodução e sobrevivência desta espécie.
Os cientistas destacaram também a presença do golfinho-roaz e da tartaruga-comum, que são espécies ameaçadas, e de outros mamíferos marinhos como o golfinho pintado, e a observação de três espécies de baleias-de-bico, raras e muito difíceis de estudar.
Mas a fonte de preocupação dos investigadores e a razão para o lançamento do alerta para a urgência de medidas de proteção foi a notória ausência de grandes predadores, como tubarões, e de espécies com interesse comercial, sugerindo que a pesca já está a ter impacto significativo numa zona que de outro modo é ainda um oásis oceânico de biodiversidade.
Em muitas dezenas de lançamentos à água de sistemas de câmaras de vídeo com isco para atrair fauna marinha, nas imagens captadas surgiram apenas dois tubarões azuis, apesar de a riqueza da fauna da montanha submarina justificar a existência de mais predadores do topo da cadeia alimentar.
«Agora é o momento da decisão política, que os processos científicos como este podem apoiar», disse na sessão de encerramento o coordenador da expedição, Emanuel Gonçalves, ao fazer um apelo para que o governo avance com medidas concretas de proteção total e gestão efetiva do banco de Gorringe.
A expedição pretendeu ser um esforço para impulsionar o caminho de Portugal no cumprimento da estratégia europeia de conseguir que até 2030 pelo menos 30 por cento do oceano seja protegido, com pelo menos 10 por cento com proteção estrita.
José Soares dos Santos, presidente do conselho de administração e do conselho de curadores da Fundação Oceano Azul, reforçou o apelo para a urgência de proteger os valores naturais do país e do planeta afirmando que «temos o conhecimento e sabemos o que temos de fazer».
Os dados recolhidos pela expedição foram obtidos com 211 mergulhos em 24 pontos da montanha submarina, com imagens vídeo subaquáticas recolhidas por sistemas automáticos em mais de 70 locais de observação, com 26 imersões de um veículo submarino operado remotamente (ROV) que percorreu 12 quilómetros entre os 40 e os 154 metros de profundidade e registou 26 horas de vídeo, com 28 percursos para avistamento de aves e mamíferos marinhos e com 40 horas de registos acústicos. Isto permitiu aceder a zonas que, até hoje, eram desconhecidas.
Com os dados e imagens recolhidos, será produzido um relatório científico e um documentário que dê a conhecer as riquezas deste património subaquático.
As amostras recolhidas serão analisadas em laboratório e por especialistas nos diferentes grupos de animais e plantas, antecipando-se muitos novos registos para este monte submarino. Seguir-se-ão igualmente muitos estudos da biologia, ecologia e genética pelos parceiros científicos envolvidos.
«É fundamental proteger este tipo de ecossistemas porque são um repositório de diversidade genética a uma escala que já não se encontra nas zonas costeiras», afirmou Ester Serrão, professora na Universidade do Algarve, investigadora do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR) e coordenadora dos trabalhos de levantamento da biodiversidade.
Esta expedição permitirá agora apoiar as medidas de conservação e gestão a implementar neste oásis oceânico.
Além do Santa Maria Manuela, a expedição contou com os catamarãs Feel Good e Oceanus II, que serviram de base às equipas de investigadores dedicados aos mamíferos e aves marinhos e à operação do ROV.
O banco de Gorringe tem dois picos principais, os montes submarinos Gettysburg e Ormonde, que apesar de submersos, ao elevarem-se desde profundidades de cerca de 5.000 metros são mais altos do que as montanhas do Pico (Açores) e Serra da Estrela juntas e são as montanhas mais altas da Europa ocidental.
Localizado a 200 quilómetros da Ponta de Sagres, a sudoeste de Portugal continental, a área desta montanha submarina estende-se por 220 quilómetros de comprimento e 80 de largura. Está localizado na Zona Económica Exclusiva (ZEE) continental de Portugal.
São ecossistemas de elevada biodiversidade, com habitats que vão desde florestas de algas perto da superfície até recifes de coral de água fria a grandes profundidades.
A cerca de 130 milhas náuticas (cerca de 240 quilómetros) a sudoeste do cabo de São Vicente, no Algarve, o banco de Gorringe foi originalmente cartografado em 1875 por Henry Gorringe, comandante do navio da marinha dos Estados Unidos USS Gettysburg e é uma cordilheira submarina com cerca de 180 quilómetros de comprimento e 60 quilómetros de largura.
Os promotores desta expedição foram a Fundação Oceano Azul, o Oceanário de Lisboa, o ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e a Marinha Portuguesa.
A expedição teve o envolvimento do governo português, Fundo Ambiental, Autoridade Marítima Nacional, Oceana, National Geographic Pristine Seas e Waitt Institute. e vários centros de investigação portugueses, dos Estados Unidos, da Austrália e da Catalunha.
Da cozinha do Santa Maria Manuela saíram mais de 3.700 refeições, três bolos de aniversário e quase 3.000 cafés.
Um dia antes do final da viagem, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, anunciou que Portugal e Espanha vão cooperar na gestão de áreas marinhas protegidas (AMP).



