Lagoa é o primeiro concelho do país a ter um sistema de 20 bicicletas elétricas públicas, num grande passo para a mobilidade sustentável no concelho. Na próxima semana será a vez do Barreiro e o objetivo é que este projeto seja replicado. Para já, segundo Daniel Ferreira, fundador e diretor geral da Wegoshare e representante europeu da Bewegan, há «potencial para alargar a outras cidades do Algarve, já havendo interesse, mesmo antes do sistema ser instalado».
«Não me espantará que assim que estiver lançado e que as pessoas experimentem», comece a surgir mais interesse, pois «a grande magia deste equipamento é experimentar. Só assim se percebe o potencial» que estará disponível a residentes e turistas, considerou.
E como não há nada como experimentar, na quinta-feira, dia 24, as bicicletas foram o meio escolhido por uma comitiva da Câmara Municipal de Lagoa, liderada pelo presidente Francisco Martins, para um passeio entre Carvoeiro e Estômbar, para inaugurar as duas das obras do Orçamento Participativo (OP) de Lagoa, o sistema de bicicletas elétricas e uma parede de escalada.
No caso das bicicletas, apesar de já estar tudo a postos desde o ano passado, faltava acertar pormenores na gestão do sistema. Estará aberto a partir de janeiro para residentes, entrando em total funcionamento, para turistas também, a partir de março. Foi um dos projetos mais votados no âmbito do OP de Lagoa, financiado com 65 mil euros pela Câmara Municipal.
A Wegoshare interessou-se e entrou com 60 mil euros, e ainda que o equipamento seja propriedade da autarquia, a empresa fará a exploração do sistema durante cinco anos. «Ou seja, todas as receitas serão para fazermos a manutenção, a assistência, o apoio ao cliente. Assumimos esse risco, porque acreditamos na região», justificou Daniel Ferreira.
Por sua vez, poderá ser o pontapé de saída para a mobilidade sustentável e para a criação de uma rede que utilize este meio como veículo intermodal. «O do Barreiro será o primeiro sistema no mundo a ter integração total com os transportes públicos. Os cartões usados para desbloquear as bicicletas, além da app móvel, são os de mobilidade urbana da cidade», descreveu. É o Lisboa Viva que é usado para autocarros, para o metro, para o comboio e o barco, numa lógica de mobilidade intermodal urbana. Também há cidades onde este sistema será implementado, que integram associações no resto do país, semelhantes à Comunidade Intermunicipal no Algarve, que têm interesse em ter sistemas gémeos. Ou seja, «são usados numa cidade, mas quando se deslocam à cidade vizinha de autocarro, com o mesmo cartão, têm lá bicicletas para poderem usar», descreveu Daniel Ferreira. Este pode ser um exemplo, que depois de concretizado e verificada a aceitação, a seguir pela região algarvia.
No caso de Lagoa, haverá uma discriminação positiva para os residentes no concelho, com preços especiais, a partir de nove euros por mês. Os passes, que podem ser semestrais ou anuais, permitem o uso ilimitado das bicicletas. «Não quer dizer levá-la para casa, mas significa que podem fazer um número ilimitado de viagens, de meia hora. Ao fim de meia hora voltam a colocar na doca e, se quiser, pode voltar a tirar e tem mais 30 minutos», esclareceu Daniel Ferreira.
Depois, há opções para turistas ou visitantes que estejam de férias no concelho. Podem obter um passe de um dia, até um mês, a rondar os 18 euros por dia. A outra hipótese é o aluguer horário (uma, duas ou quatro horas), com preços a rondar os cinco euros por hora.
Os veículos estão disponíveis em Carvoeiro, na Senhora da Rocha (Porches) e em Ferragudo, permitindo a flexibilidade de deixá-las, no final do passeio, em qualquer um destes pontos. Faz-se o «trabalho de redistribuição, de monitorizar online, numa plataforma de gestão, onde se consegue saber onde estão as bicicletas, se estão em andamento, se estão nas docas e, quando começa a haver muitas numa estação e poucas noutra», um funcionário vai de carro redistribui-las de novo. No total são 20 veículos, nas três estações e 30 docas de carregamento automático.
E usar é fácil. Segundo Daniel Ferreira, na estação de Carvoeiro «há um quiosque multimédia, com um ecrã táctil a cores, com leitor de cartões de crédito, com dispensador automático, que permite comprar uma subscrição». Além disso, há um website, com toda a informação, um mapa em tempo real que possibilita ver quantas bicicletas estão disponíveis em cada estação, permitindo ainda o registo como novo membro. Se for residente, terá que apresentar um comprovativo de morada para ter acesso à discriminação positiva na tarifa. «Através do site pode fazer tudo. Depois temos uma aplicação móvel para Android e para iPhone, em que pode fazer tudo, tal como num quiosque, desde pagar uma subscrição, alugar uma bicicleta, desbloqueá-la, bastando indicar o número do veículo que está no poste do guiador», afirmou Daniel Ferreira. Para quem compra o cartão físico, bastará passá-lo pelo leitor do velocípede.
«É um sistema de última geração. Além de elétricas» têm tecnologia de ponta incorporada, resumiu.
As bicicletas são feitas no Canadá, na empresa Rocky Mountain, que tem muita experiência neste tipo de sistemas, mas todos os componentes informáticos, desde os circuitos impressos, os controladores, os sensores, o backoffice, as aplicações móveis e o site, são feitos pela empresa portuguesa Bikeemotion, que fornece esta tecnologia para todos os sistema da Bewegan no mundo.
São dispositivos que estão integrados e não são visíveis a olho nu. Permitem, por exemplo, que em caso de tentativa de roubo dispare um alarme sonoro, mas também um alerta para a central, através de comunicações 3G. Como têm GPS a central consegue saber onde está o veículo elétrico. Está equipada com uma «série de dispositivos anti-vandalismo», como é o caso do selim, que não pode ser retirado, explicou. «Todas as peças, parafusos e porcas, nada é retirado com ferramentas standard», esclareceu. A Bewegan tem cinco anos, mas toda esta equipa vem de outra empresa que já existia, que criou sistemas dos mais famosos do mundo, num total de 50 mil bicicletas, em cidades como Nova Iorque, Londres, Seattle, Melbourne.
Por se encontrar exposto aos elementos, em particular o sol e o sal, que no Algarve predominam, foram pensadas medidas para retardar os efeitos de desgaste. Estas bicicletas usam «pintura de pó, com um tratamento, uma película exterior de tratamento anti-corrosão salina e UV», os plásticos são de alta resistência a ambos. A estrutura, segundo Daniel Ferreira, salvaguarda qualquer má utilização. Por exemplo, «alguém decide sentar-se no guarda-lamas à boleia. Este, de modo automático, começa a deformar até tocar na roda», explicou o responsável. Este contacto provoca a paragem do veículo, estando também o plástico preparado para dobrar ao máximo sem partir. «Desde o selim, o revestimento, a espuma interior, aos punhos são de alta resistência. O ecrã tem proteção UV e contra o impacto», acrescentou.
Para o autor da proposta ao Orçamento Participativo de Lagoa, Luís Cortes, este projeto permite «descobrir o Algarve e viajar sem receio, até porque a bicicleta tem autonomia suficiente para ir a Vila do Bispo e voltar», exemplificou. Por outro lado, o autor da sugestão mais votada destaca a facilidade da utilização do sistema, a interligação entre freguesias e o facto de ter um cadeado secundário. «Havia o problema de ir às compras, ao café» e não haver uma forma de guardar o veículo, começou por descrever Luís Cortes. Então, a «empresa teve a ideia genial de colocar um cadeado secundário incorporado, para que, quando se chega ao destino e não há uma doca, se coloque o cadeado», concluiu.
Com três edições do Orçamento Participativo concretizadas, a Câmara Municipal de Lagoa investiu 900 mil euros em 18 infraestruturas escolhidas pela população. Para 2017, a autarquia manterá o modelo, tendo atribuído 300 mil euros para as propostas que forem consideradas mais importantes pela comunidade.
Estômbar ganha parede de escalada única no sul
O outro projeto mais votado do Orçamento Participativo de Lagoa, agora inaugurado, é a parede de escalada instalada no pavilhão do Estádio Municipal de Estômbar. Proposto por Valter Guerreiro, Nuno Sacramento e Ana Rita Matos esta obra colmatará uma lacuna a sul do Tejo.
«Abaixo de Lisboa não existe nenhuma infraestrutura como esta. Um espaço como este será uma mais valia para atrair novos praticantes», explicou ao «barlavento» Valter Guerreiro. A única opção era a saída para escalada em rocha natural. Aliás, os autores da proposta pertencem ao núcleo da ADR, o único no Barlavento que promove a modalidade.
Por um lado, haverá outro acesso a este desporto, porque quem gosta de praticar escalada, mas tem pouco tempo poderá deslocar-se com facilidade ao Estádio, escalar e voltar para casa.
Por outro lado, permitirá que haja formação ou um primeiro contacto. No caso do Algarve, até há praticantes, mas faltam boas condições de infraestruturas. «Somos cerca de 30 e é rara a pessoas que chegou, viu e saiu para a escalada. E aqui, para aprender as bases, é o melhor, pois é um ambiente seguro. Ir para a rocha é depois um passo natural», esclareceu Nuno Sacramento.
Esta infraestrutura será ainda uma mais valia a nível da competição, na boulder, que consiste na escalada com colchão no solo, sem corda. «Temos miúdos que vão às competições. Uma rapariga, que foi a campeã nacional no ano passado, não tem como treinar», adiantou Nuno Sacramento. Apesar de existirem outros locais, há diferenças nas condições.