Há medo, porque a pobreza é crescente e, pior, a sociedade está mais e mais desigual. Há medo, porque vivemos na gritante situação de sermos o país da União Europeia com o maior fosso entre os rendimentos dos ricos e dos pobres. Pior. Há medo, porque os políticos e economistas engravatados nos dizem, todos os dias, que é nestas condições que teremos que viver nas próximas décadas, pretendendo fixar a nossa carne à miséria com longos pregos. Dizia o padre Fernando Calado Rodrigues, em recente artigo de jornal, «se os pobres votassem…». Digo eu, se os pobres, os desempregados, as vítimas de violência, os velhos, os jovens, os religiosos e os ateus votassem… Se todo o cidadão encarasse o voto como a derradeira obrigação cívica da sua vida em sociedade… Se cada um de nós, em benefício próprio, pretendesse usar essa medonha e maravilhosa arma de alterar o mundo… Se o povo entendido, como todos os cidadãos deste país, votasse, então as portas da democracia poder-se-iam abrir para novos futuros e novas construções sociais, bem diferentes das ideias decadentes que os grandes partidos da nossa democracia lançam à luz. Não podemos negar a importância histórica do PS ou do PSD, na construção dos subsídios sociais, do ordenado mínimo, do sistema nacional de saúde, do ensino universal garantido pela escola pública, mas esse ciclo esgotou-se há, pelo menos, vinte e cinco anos. Dos anos noventa para cá, temos assistido a dois partidos manipuladores que gerem a sua situação e dão sombra a todas as negociatas estatais que possamos imaginar. Não é apenas José Sócrates na cadeia que o demonstra, os casos conhecidos são às dezenas e os por conhecer serão às centenas. Fora a colonização que estes dois partidos promoveram em todos os altos e médios cargos da função pública; mais as Câmaras com os seus sacos azuis, destinados a financiar os partidos. Corrupção. Os prejuízos para a sociedade portuguesa estão à mostra, tão evidentes que até doem. O uso do Estado para defender os grandes e pôr os descontentes na ordem. Ainda assim, os portugueses têm medo e paralisam perante este sentimento. PS e PSD gostam de iludir as pessoas com o S do socialismo, e vão dizendo que as eleições estão decididas à partida. No fundo, o tango PS e PSD já dura há quarenta anos e talvez possa durar um bocadinho mais. Ou não. No conjunto dos dois partidos, neste século, e para quatro eleições legislativas, passaram de 78 por cento, em 2002, dos votos para 66,71 por cento, em 2011. O método de Hondt e os círculos eleitorais têm permitido aconchegar as perdas, porque administrativamente os grandes são beneficiados, basta ver que nas últimas eleições haveria menos oito deputados destes dois partidos se a representatividade fosse direta. Agora imaginem que as pessoas decidem votar e dizem que já não toleram mais que dois partidos decadentes governem em seu nome. Só não acontecerá assim se boa parte da sociedade portuguesa decidir não votar nestas próximas legislativas. Aí as pessoas não precisarão de ter medo do futuro, porque continuarão a viver numa sociedade injusta, de pobreza, de miséria, de desemprego e de riquezas certas para alguns. O tango perdurará. Uma sociedade mais justa é também mais pacífica, mais criativa, mais dinâmica… mais feliz. Quem não deseje isto, apenas pode ser louco ou viver agrilhoado pelo medo de usar uma arma, a maravilhosa arma da democracia: o voto… Você tem medo? *Professor de história