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É atribuída a Bertrand Russel a afirmação de que «a Matemática é a única ciência exacta em que nunca se sabe do que se está a falar nem se aquilo que se diz é verdadeiro» (transcrição do jornal PÚBLICO).
Sabendo nós que esta questão não é de agora nem exclusiva da Matemática, é imediata a tentação de aplicá-la à situação política atual em Portugal.
TEMAS: ESCREVIVENDO Desde logo poderíamos deduzir que, ao escolher um matemático para ministro, o responsável pelo executivo faz uma opção: não interessa perguntar se o Governo está certo ou errado naquilo que diz, nem importa perceber do que ele está a falar.

Compreende-se, assim, como é irrelevante a questão das licenciaturas dos ministros. Veja-se o caso do dr. Vitor Gaspar. Apesar de detentor de uma licenciatura e um MBA, as suas previsões orçamentais não acertaram com os números do deficit, nem com os números do desemprego, nem com os números da receita do IVA. Dá para entender?
Mas a teimosia desta gente devotada em levar por diante o seu programa de «salvação de Portugal», a todo o custo, menosprezando eleitores e eleições («Que se lixem, não é?»), pode vir a terminar mal.
Eles podem vir a queimar-se na fogueira do empobrecimento em que lançaram o país, porque distorceram a política dando a primazia ao deficit em detrimento das pessoas.
E vem a propósito uma história exemplar encontrada nas «Chroniques de l’Afrique de l’Ouest». Em 1959, Biaka Boda, senador da Costa de Marfim, foi encarregado de uma missão oficial no interior do país: elaborar um relatório pormenorizado sobre as necessidades alimentares da população.
O zelo deste político era conhecido de toda a gente. Ora, acontece que ninguém o viu regressar. Apenas foram encontradas a sua gravata e um ornamento pessoal em oiro, assim como as primeiras notas da sua memória sobre a sub-alimentação dos seus concidadãos. Encontravam-se junto das brasas de uma grande fogueira. O senador Biaka Boda tinha sido devorado por antropófagos. Conserva-se dele a memória de um homem devotado.
Seria útil ao país que o Governo e seus deputados voltassem a ler os clássicos, se é que os leram no tempo escolar. Reaprenderiam que não há política sem afectos e não há razão sem política.
É isso que ensinam, contínua e diversamente, Sócrates (o de Atenas), Epicuro, Séneca e todos os outros. E mais aprenderiam que uma forma saudável de ignorância é a consciência de não saber. Daí, o desejo de procurar.
Contra a desumanidade corrente, contra a falta de imaginário mobilizador sugiro o regresso aos Antigos. Eles estão no desemprego. Já não são modelos nem heróis. Nem objectos de desejo, nem sujeitos de curiosidade.
É o momento de os reinventar. Estão em rede, disponíveis na web, de todo o lado e para todos, gratuitamente. Estamos em vias de nos tornarmos bárbaros?
Mais uma razão para degustarmos os tesouros antigos. Podem consultar, para começar, VOLTAR A LER OS CLÁSSICOS, Roger-Pol Droit, Círculo de Leitores 2011.
10 de Agosto de 2012 | 10:38
Manuel da Luz*
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