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Regional

Há ideias novas para revitalizar o núcleo antigo de Ferragudo

Foto
d.r. Ver Fotos »
Uma das propostas de Marlene Uldschmidt para Ferragudo

O casario da vila de Ferragudo já não se espraia de forma harmoniosa pela encosta junto ao Rio Arade. Pelo meio das casas baixas e brancas, construídas nas ruas apertadas do núcleo antigo, surgem agora prédios mais altos, com brilhantes janelas de alumínio e fachadas coloridas, a quebrar o equilíbrio do conjunto de sabor mediterrânico.

O problema é que, apesar de várias propostas, a Câmara Municipal de Lagoa ainda não definiu regras claras para o núcleo mais antigo de Ferragudo, o dos postais ilustrados que correm mundo.

E as regras que valem para essa zona são as mesmas que podem ser aplicadas em qualquer área de construção nova.

Estas questões têm dado que pensar a Marlene Uldschmidt, uma arquitecta alemã que há quatro anos escolheu viver em Ferragudo.

«A parte antiga de Ferragudo não é respeitada. Todos podem comprar uma casa velha, demolir e fazer uma nova sem cuidados», disse a arquitecta ao «barlavento». Nos últimos anos, há estragos que têm sido feitos na malha urbana e que podem ser facilmente avaliados comparando fotografias tiradas à vila ano após ano.

Marlene está a elaborar, com a sua equipa, uma proposta que pretende apresentar, em breve, à Câmara de Lagoa, com ideias para a preservação activa de Ferragudo.

A sua ideia, esclarece, não é fazer da vila um museu, onde não se pode mexer e nada se altera. A ideia é, pelo contrário, «revitalizar o lugar, respeitando-o, mas não deixando de intervir de uma forma actual, contemporânea». «É preciso aprender a respeitar», diz a arquitecta.

Para isso, antes de mais há que conhecer o que existe. «É preciso saber quais são as características de Ferragudo que tornam esta povoação tão atractiva», salienta Marlene Uldschmidt. Entre essas características, estão «as proporções das casas, das ruas, os materiais que se utilizam».

A arquitecta, que já fez três projectos para Ferragudo e está prestes a concretizar um quarto projecto, defende que «há que manter o exterior da casa, a fachada, embora podendo introduzir alterações dentro do mesmo espírito, mas que, por dentro, tudo pode ser novo e adaptado aos tempos actuais».

Ao manter-se a volumetria da casa, que está relacionada com a casa vizinha e essa com a outra ao lado, mantém-se «o espírito do lugar», mas também, defende, «o espírito das pessoas que lá viveram antes».

«Os edifícios não preenchem só as nossas necessidades individuais, eles completam também o ambiente onde se encontram», salienta, na apresentação que está a preparar. Mas há que preparar o novo edifício para os tempos actuais, para a geração seguinte.

Marlene Uldschmidt salienta o exemplo da casa onde está situado o seu ateliê, nas Escadinhas do Arade: «antes, aqui havia um armazém para as redes de pesca, porque a maior parte das pessoas de Ferragudo vivia de facto da pesca. Hoje, há novas pessoas a viver na vila, com outras profissões e outras preocupações, por isso, por dentro, as casas terão que ser pensadas para dar resposta às novas necessidades».

Mas por fora há que manter o equilíbrio do casario que os turistas tanto gostam de fotografar e que rapidamente, nos últimos anos, está a desaparecer.

Apesar de ela própria ser uma estrangeira, Marlene afirma não gostar «de ver as casas a serem compradas por gente de fora, que só vive cá durante duas, três semanas no Verão e mais duas no Inverno».

Por isso, a arquitecta, que reside na vila todo o ano, gostava que as novas regras para o núcleo antigo de Ferragudo criassem condições para «tornar isto mais atractivo para os jovens».

As novas construções, resultantes da revitalização das antigas, «não têm que ser muito caras e assim as famílias jovens podiam voltar para cá». Uma ideia que lança é a possibilidade de os jovens que comprassem casa no casco antigo de Ferragudo poderem ficar isentos de taxas municipais «durante uns cinco anos».

Na sua opinião, isso seria um importante incentivo para trazer de novo gente à vila e, sobretudo, para evitar a desertificação das suas ruas, becos e escadinhas durante grande parte do ano.

«As pessoas mais jovens deveriam vir viver para aqui, porque isso traz movimento, traz dinheiro e negócios para a terra».

Marlene fala também da relação que Ferragudo vai ter, no futuro, com a Marina a ser construída a curta distância do casco antigo da vila. Por um lado, receia que a marina «atraia para cá gente muito rica que expulse as pessoas da terra», sem possibilidades de competir na hora de comprar uma casa velha…ou mesmo uma nova.

Por outro, a arquitecta salienta que «se a parte antiga se mantiver viva, revitalizada, os turistas da marina virão cá para usar os restaurantes, as lojas».

«Se, quando a marina estiver construída, houver uma zona ribeirinha bonita, atractiva, isso poderá ser bom para Ferragudo. Caso contrário, os turistas não sairão da marina. Tudo isto tem que ser visto em conjunto».

14 de Março de 2009 | 08:35
elisabete rodrigues

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